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Leonel Moura leonel.moura@mail.telepac.pt 07 de Dezembro de 2005 às 15:24

Depois das presidenciais

Mais uma vez a política portuguesa assenta na esquizofrenia. Isto no sentido em que se usa esta palavra para designar uma perda de contacto com a realidade. Por um lado temos a descomunal importância que políticos, comentadores, intelectuais e média dão à

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Mais uma vez a política portuguesa assenta na esquizofrenia. Isto no sentido em que se usa esta palavra para designar uma perda de contacto com a realidade. Por um lado temos a descomunal importância que políticos, comentadores, intelectuais e média dão à actual campanha presidencial; por outro o razoável desinteresse a que o povo vota tal matéria.

Tirando a passagem pela aldeia ou bairro de um qualquer candidato, sempre festiva à falta de melhor, a maioria dos portugueses acompanha com um interesse relativo a disputa política e eleitoral em curso. E a previsível alta audiência dos debates televisivos prende-se mais com o "reality-show" do que com a política.

Aliás, à medida que o tempo democrático passa, as campanhas são cada vez mais um exercício das máquinas partidárias e de alguns entusiastas desgarrados. E estas eleições não fogem à regra. Mesmo nas sessões que Manuel Alegre por aí anima com o seu vozeirão e muita demagogia lírica, a figuração é essencialmente composta pelos habituais descontentes do PS.

Mas se para o povo a coisa pouco acrescenta à sua existência dura, para a vida partidária anuncia-se um cenário tumultuoso. À esquerda, por muito que se diga, a fragmentação vem para ficar. Qualquer que seja o resultado eleitoral a crise é evidente. A derrota logo na primeira volta culpará todos de forma irremediável. A passagem de Mário Soares à segunda será uma machadada no Bloco e assanhará ainda mais Alegre e a tropa confusa que o acompanha. Só Jerónimo e o PCP neste cenário passarão entre os pingos da chuva. Caso seja Alegre o mais votado o PS entrará em ebulição. O próprio PC terá dificuldade em segurar a animosidade das hostes. E o Bloco nada ganhará com o assunto. Exceptuando o caso de no final Mário Soares vencer qualquer outro cenário será desastroso para a esquerda. E terá consequências.

Mas a direita não está melhor. Tal como avisou Miguel Cadilhe Cavaco é um eucalipto político que seca tudo à sua volta. E já começou a secar. O CDS desapareceu. O PSD reduziu-se a um apêndice útil mas insignificante. É certo que não se pode avaliar um dirigente político por aquilo que afirma circunstancialmente. Pois diz tanta coisa todos os dias que o disparate abunda. Mas não deixa de ser sintomático que Marques Mendes tenha recentemente declarado que o facto de Cavaco prescindir do PSD na campanha é porque coloca Portugal primeiro. O que só pode significar portanto que o PSD não o faz. Adiante.

Mas há mais. Se Cavaco não ganhar a catástrofe na direita, CDS e PSD juntos, é total. Mas se ganhar também. Porque Cavaco não é homem de partido e para mais se diz anti-partidos naquele estilo tecnocrata-populista que tão bem o caracteriza. A direita que anda tão excitada com a possibilidade de ter um Presidente em Belém afinal, com Cavaco, nunca o terá. Será de direita é certo, mas de uma direita unipessoal.

E ainda há mais. Cavaco nunca dará a ninguém mais do que chá e conselhos. Porque nada mais tem para dar ainda que por estes dias proclame que vai fazer isto e aquilo. O Presidente não governa. Deixa governar ou cria dificuldades a quem o faz. É tudo. A dissolução, único poder efectivo que lhe resta, não pode ser usada todos os dias. E mesmo nesse caso é imprescindível a colaboração activa de um Santana qualquer que apesar de tudo e para felicidade lusa não abundam por aí.

Com tudo isto e resumindo, a expectativa que a classe falante e mandante tem vindo a criar com estas eleições resultará em novo desalento geral. Mais uma vez anda-se a prometer aos portugueses mundos quando só terão abismos.

Pessoalmente estou convencido que o único presidente que poderia introduzir alguma normalidade seria Mário Soares e por isso também o apoio. Mas, para lá desta convicção pessoal que vale o que vale, a política voltará a sair muito mal da deriva extravagante das presidenciais. Por uma qualquer razão que se mantém relativamente inexplicável Portugal não parece ser capaz de se concentrar naquilo que realmente importa.

Mais do que o saldo negativo das contas públicas o nosso país sofre na verdade de um enorme défice de realidade.

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