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Em defesa da anarquia

Mas a obediência à hierarquia não mata só nas guerras e nos desastres. Mina todos os dias a generalidade da atividade humana. Na família oprime, na escola estupidifica, no mundo do trabalho reduz a produtividade e a capacidade de inovação.

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O meu amigo Paco, cujo avô andou na coluna de Durruti a combater o franquismo, enviou-me o link de uma notícia sobre o recente naufrágio na Coreia do Sul que vitimou centenas de jovens. O artigo cita várias fontes governamentais e analistas atribuindo uma boa parte da responsabilidade por tanta mortandade à cultura da obediência. Tendo recebido ordem para ficarem fechados nos camarotes, a maioria aí esperou obedientemente pela morte. Em suma, como dizia Paco, salvaram-se os anarquistas.

 

Que a cultura da obediência mata sabemo-lo das guerras. A forte hierarquia militar não consegue vencer contra uma guerrilha ou o que agora se chama terrorismo. Os Estados Unidos, por exemplo, têm perdido todas as guerras ditas não convencionais desde o Vietname. A hierarquia só parece funcionar no plano do convencional, como se a guerra tivesse algo disso. E mesmo assim, nem sempre… Veja-se a quantidade de mortes por "fogo amigo". Alguém diz dispara e a cabeça obediente atira sem ponderar as reais circunstâncias.

 

Mas a obediência à hierarquia não mata só nas guerras e nos desastres. Mina todos os dias a generalidade da atividade humana. Na família oprime, na escola estupidifica, no mundo do trabalho reduz a produtividade e a capacidade de inovação. Num país, como é o caso deste infeliz Portugal, essa obediência cega a quem manda arruina milhões de existências presentes e futuras. Já agora, porque a época é apropriada, foi por causa da obediência à autoridade que Portugal viveu meio século em ditadura fascista. E também só quando desobedeceu conseguiu finalmente a libertação no 25 de Abril.

 

Nos últimos anos muito se tem falado da necessidade de empreender e apostarmos, individual e coletivamente, na criatividade e na inovação. São milhares de PowerPoint com frases feitas e banalidades repetidas à exaustão. Mas raramente alguém diz que o essencial da criatividade reside na desobediência, na recusa em seguir regras, no fazer aquilo que a maioria diz que não se pode fazer. A verdadeira inovação não pode ser nem banal nem aceite. Porque se o for não é realmente inovadora. Uma ideia nova não pode ser compreendida à partida. Porque sendo de facto nova obriga a uma mudança de mentalidades e de comportamento. E isso, a cultura da obediência imposta pelos poderes de todo o tipo, dos políticos aos económicos, dos morais aos filosóficos, não aprecia e combate.

 

Não só por natureza, certamente por ter decidido muito cedo ser artista, defendo que a anarquia, entendida sobretudo como um pensar com a própria cabeça e agir em conformidade, é o melhor sistema social e aquele que garante uma vida mais livre e proveitosa. Anarquia não é pôr bombas, fazer o que nos apetece ou desprezar os outros. Pelo contrário, implica uma forte ética da responsabilidade e conduz a um comportamento muito equilibrado no relacionamento social. Porque não vivemos no melhor dos mundos a cada momento há que fazer escolhas, pois são elas que determinam o curso da história. Quanto mais livres e ponderadas forem essas escolhas maior é a possibilidade de contribuirmos para uma evolução positiva do Todo. É essa a essência da democracia desde o tempo dos gregos que a inventaram.

 

A subordinação a dogmas e ordens conduz à letargia, quando não a destinos trágicos. É por isso que à cultura da obediência, extrema nos sul-coreanos e outros orientais, donde se destacam aliás os seus irmãos da alucinada sociedade da Coreia do Norte, é preciso desenvolver uma cultura da desobediência. Não só à autoridade, mas acima de tudo na vida corrente. O que nos resta, na Europa e no Ocidente, enquanto capacidade de resistir à invasão chinesa, assenta em grande medida nesta maneira algo libertária de construirmos as nossas vidas. É dela que vêm as grandes invenções, a inovação tecnológica, o design inovador que ainda nos permite andar um pouco à frente da fabricação repetitiva do regime do grande número, dos baixos salários e ausência de direitos.

 

Enfim, a Europa será libertária ou não será nada.

 

Artista Plástico

 

Este artigo de opinião foi escrito em conformidade com o novo Acordo Ortográfico.

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