Leonel Moura
Leonel Moura 10 de setembro de 2015 às 18:50

Fim de ciclo  

É caricato ver tanta gente da direita preocupada com o PS caso Sócrates decida falar. Nunca se viu coisa assim.

Não passa dia que não venha alguém dar conselhos para ele ficar calado, consumindo-se horas nas televisões em comentários, avisos e ameaças, desenhando-se cenários, cada um mais negro do que outro para Costa, caso o homem abra a boca. A direita tomou a missão de proteger o PS.

 

E, no entanto, toda a gente sabe que quando Sócrates falar vai dizer o que tem dito desde que foi preso, ou seja, apresenta a sua defesa como lhe compete. Não há aqui algo que possa interferir com a campanha eleitoral e muito menos com o seu inevitável resultado. Haverá sim mais uns quantos diretos do deserto e muitos comentários sobre coisa nenhuma. Mas disso já estamos habituados.

 

Trata-se, portanto, de mais um sintoma da socratite, uma doença de tipo viral que afeta muita gente e devia merecer alguma preocupação por parte das entidades sanitárias. Alguns internamentos seriam mesmo aconselháveis. O nível de ódio só tem par com o chorrilho de tresloucados disparates. Esta peculiar maleita é sobretudo fomentada pela direita, que se convenceu que cada vez que se fala de Sócrates o PS perde votos. Daí a insistência até à náusea, como se viu no debate Passos/Costa.

 

Imagino que haja quem veja um pouco mais além e entenda esta estratégia como uma maneira de esconder a realidade. Já que essa é implacável. A coligação de direita está esgotada, não tem mais nada para propor aos portugueses do que aquilo que fez nos últimos quatro anos, ou seja, maldades. Não tem ideias, não tem programa, bastando-se com a afirmação de que cumpriu o superior dever de vender e arruinar o país. Por isso morre no dia 4 de Outubro. Sem uma impossível maioria, não tem qualquer hipótese de formar governo e Passos Coelho termina nesse dia o seu exercício. E sabe-o muito bem. Não se trata de uma opinião, mas de simples aritmética.

 

As próprias sondagens que vão dando regularmente a vitória da coligação só a prejudicam. Ainda que prejudiquem mais Bloco e PC, pois favorecem o voto útil no PS. Cada vez que se acena com o improvável mais se motiva as pessoas que não querem as políticas de austeridade, nem o atual governo, a votar em Costa.

 

A direita convenceu-se de que como tem a maioria da comunicação social a dar-lhe eco isso basta para condicionar as pessoas. Esquece dois factos. A mudança é sempre mais aliciante do que a continuidade. Sobretudo num mundo tão dinâmico como o nosso. Um mundo em que se pede capacidade de adaptação e iniciativa contra o marasmo das coisas tidas por seguras, mas que depressa se tornam na maior das inseguranças. Como se viu no caso BES ou nos inexistentes empregos para a vida. Mudar é a condição do homem contemporâneo.

 

Esquece também que hoje as campanhas mediáticas já só fazem efeito nos apaniguados. A perda de credibilidade do jornalismo conjugada com a emergência das redes sociais diversifica as opiniões. As campanhas, o constante matraquear das mesmas mistificações, só servem os convencidos, não os que têm dúvidas, e os indecisos, os que querem pensar melhor no assunto. Não será por se falar vinte vezes ao dia de Sócrates ou dizer que salvaram o país da bancarrota que a direita ganhará votos. Seria preciso dizer algo palpável, que não se diz porque na verdade o que se tem para dizer é mais do mesmo. A fraca prestação de Portas com Catarina Martins e a de um Passos Coelho arrasado por António Costa são sintoma do fim de ciclo em que estamos.

 

A coligação está esgotada politicamente, na sua credibilidade e no seu eleitorado. Não tem tempo, nem maneira, de remediar esta realidade. Não se pode andar quatro anos a tratar mal os portugueses e em poucas semanas convencê-los de que agora só se vai fazer o bem.

 

Neste discurso há aliás uma coisa que é particularmente irritante e que desagrada a muita gente. Quando o Governo diz que conseguiu vencer a crise graças ao esforço e à colaboração dos portugueses, esquece que estes não o fizeram a gosto mas por imposição, tanta vez à força. Ninguém entregou voluntariamente a sua reforma, ninguém ficou desempregado porque lhe apeteceu, ninguém emigrou porque quis conhecer mundo. A falta de decoro paga-se.

 

Artista Plástico

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