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Leonel Moura leonel.moura@mail.telepac.pt 30 de Setembro de 2011 às 11:37

Génios

O Governo nomeou seis génios para saber o que fazer com a AICEP.

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O Governo nomeou seis génios para saber o que fazer com a AICEP. Esta Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal é fundamental para angariar investimento estrangeiro e, sobretudo, para incrementar as exportações. Temáticas cruciais neste tempo de dúvidas e dívidas.

Os génios reuniram, discutiram e por fim produziram um parco documento com três ideias contraditórias. Feito extraordinário pois, conhecendo-os, seria de esperar que fossem seis.

Os génios em Portugal são assim. Têm ideias fixas, são prima-donas incapazes de trabalhar em grupo, produzem muita agitação mas raramente algo de realmente útil. Tal como os relógios parados, de vez em quando acertam, mas na maioria do tempo geram ruído, confusão e muita presença na televisão. O que rima.

No caso em questão é evidente a nulidade do serviço prestado. Se o Governo não sabia o que fazer com a AICEP deve ter ficado ainda mais baralhado. Tanto mais que estas mentes brilhantes não perderam tempo a definir o papel desta agência na situação em que nos encontramos e pensando no estado do mundo, mas trataram daquilo que para eles realmente importa, o poder.

As três propostas resumiram-se a escolher quem manda na futura AICEP: primeiro-ministro, ministro dos negócios estrangeiros ou ministro da economia. É isto que sai quando por cá se juntam seis génios numa mesma sala.

Mas se eles se acham o máximo, a realidade mostra que não é assim. Portugal está na miséria devido ao atraso e debilidade cultural das suas elites. Essa gente que no Estado, nas empresas, na vida social e na média manda, define rumos e cria as condições objetivas do funcionamento da nossa sociedade. Não é certamente por culpa de quem trabalha, do sol ou da genética que não conseguimos sair desta torpeza coletiva. Estamos a falar do mesmo restrito e restritivo número de pessoas, que aparecem em todo o lado, ocupam cargos, gerem empresas, uma vez são ministros e outra geniais consultores de ministros.

O desenvolvimento do país nas últimas décadas é uma evidência. Fizeram-se estradas, escolas, hospitais, universalizaram-se o ensino e os cuidados na saúde, os portugueses tomam banho e vestem melhor. Já não se cospe tanto para o chão. Os polícias cortaram o bigode. Temos grandes artistas e cientistas. Somos mesmo avançados nalgumas áreas. Mas a trama social mantém-se exatamente a mesma desde, pelo menos, o retrato feito por Eça de Queirós. A mesma ignorância, venalidade e egoísmo. O mesmo enfatuamento e desprezo pelos outros. O mesmo atraso e dificuldade em evoluir face a um mundo que não para. O mesmo "lirismo piegas", as mesmas "abomináveis sandices" tão brilhantemente descritas por Eça.

Mas, e pior, o mesmo encosto ao Estado que se explora até ao limite e para lá dele, como se sabe. Ao contrário do que por aí se diz, o estado deplorável das nossas finanças não advém dos encargos com os mais desfavorecidos, mas precisamente dos tremendos encargos com os mais favorecidos. A elite portuguesa vive à sombra do Estado, apropriando-se dos cargos, dos negócios, das benesses e favorecimentos. A livre concorrência pura e simplesmente não existe. A maioria dos concursos públicos são combinados ou feitos à medida. A corrupção é um lugar-comum.

Portugal segue desde há décadas o princípio improvável de imaginar que se os ricos ficarem mais ricos os pobres, por arrasto, ficarão menos pobres. Não é isso que se vê. O fosso é cada vez maior. Tanto mais que o dinheiro, assim obtido, tem servido para tudo menos para investir, modernizar e inovar. De outro modo como se explica que após décadas a sorver o dinheiro público de súbito esteja tudo falido?

O caso citado é por isso exemplar para se entender porque Portugal não funciona. Os seis génios acharam que importante mesmo era saber quem manda, mas não para que serve essa agência, qual a sua estratégia, como usar esse instrumento para ajudar a nossa economia a sair do marasmo. Aliás, qualquer pessoa que não seja génio, imaginaria que era por aí que se devia começar e só depois tratar do organograma.

Em conclusão sabemos agora que a AICEP ficará na dependência do primeiro-ministro. Mais uma. Só não se sabe é para que servirá nem o que fará. Coisas menores, portanto.

Este artigo de opinião foi escrito em conformidade com o novo Acordo Ortográfico.
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