Leonel Moura
Leonel Moura 25 de junho de 2015 às 21:00

Grécia e Europa

Grécia não é um país qualquer. É a grande fonte da história Ocidental, a origem da civilização tal como a entendemos, o berço da filosofia e do pensamento científico, a mãe da democracia. É da sua mitologia, e de um Zeus mulherengo, que aparece o próprio nome Europa.

Os seus problemas momentâneos são um mero percalço numa existência secular e brilhante. Não se consegue aliás imaginar a Europa sem a Grécia. A sua saída do euro poderia até ser melhor para o povo grego a prazo, mas teria um forte impacto simbólico. Seria, em suma, o fim da Europa. O fracasso de um projeto único no planeta.

 

Teria também implicações financeiras que de momento ninguém sabe prever. Aqueles que acham que os gregos devem penar têm mostrado uma enorme irresponsabilidade. É que o tiro pode realmente sair-lhes pela culatra. A começar por Portugal.

 

Mas mesmo que à última hora se chegue a um acordo, o grande dano está feito. Nestes últimos meses as principais instituições europeias, comandadas por alguns governos, praticaram uma estratégia de humilhação que vai deixar as suas marcas. Na Grécia certamente, mas em todos os restantes povos europeus, pelo menos naqueles que se dão ao respeito.

 

Não se entende a lógica dos procedimentos. Admite-se, e está mesmo certo, que a pertença ao clube da moeda euro imponha algumas condições. Uma delas, das mais importantes, diz respeito ao limite do défice excessivo que, neste caso, é de 3%. Cabe a cada governo definir a forma como não ultrapassa esse valor ou justificar, perante os parceiros, porque não o conseguiu. Está aliás escrito em tratado. Mas já não faz qualquer sentido que sejam os técnicos ou mesmo os políticos de outros países a dizer como se deve proceder, que tem de se cortar nas pensões destes e daqueles, subir o IVA dos produtos tais e tais ou qualquer outra medida detalhada. Esse nível de detalhe só pode ser da responsabilidade de quem foi eleito.

 

Sabendo-se que é através do orçamento que um governo define as suas políticas, a situação atual da Grécia, mas também de Portugal, implica uma ingerência absolutamente intolerável. Na realidade, somos governados por pessoas que não conhecemos, que não foram eleitas e a quem não se podem pedir contas. Os governos nesta situação tornam-se "testas de ferro", verdadeiros "ghostwriters" de uma novela escrita por outros. Não é possível construir uma união, monetária, política, económica ou outra, desta forma.

 

E, no entanto, este tipo de humilhação tornou-se no método essencial da negociação europeia. Com consequências extremamente negativas. O número de eurocéticos não para de crescer, enquanto aqueles que defendem o projeto europeu vão ficando sem argumentos. Ao invés de se caminhar para a federação, como está implícito no projeto original, em muitos países vão-se afirmando de novo os nacionalismos reacionários e xenófobos, ou seja, precisamente o oposto da ideia de solidariedade que se pretendia. Volta a falar-se da construção de muros. E até regressam as nuvens negras de novas guerras.

 

Em suma, a Grécia é um problema menor no contexto europeu. Uma economia com dificuldade em crescer o suficiente e uma organização social demasiado dependente do Estado. Tal como sucede em Portugal e nalguns outros países. O que tem perfeita solução ainda que possa levar o seu tempo. Pelo menos o tempo da renovação geracional. Mas não se pode, de um momento para o outro, despedir todos os funcionários públicos, aumentar brutalmente impostos, cortar na educação e na saúde. Há quem não entenda isto.

 

A Europa tem problemas bastante mais sérios pela frente. O regresso dos nacionalismos, já apontado. Mas também a inadequação da sua economia e da sua cultura, porque está ligado, a um mundo em acelerada mudança. O atraso, face aos Estados Unidos e alguns países asiáticos, em domínios fundamentais como são as novas tecnologias e a inovação, deviam preocupar bastante mais os burocratas de Bruxelas do que as dificuldades dos gregos. Porque sem uma alteração radical da mentalidade demasiado centralizada e desfavorável à iniciativa e à criatividade é toda a Europa que se pode tornar amanhã na Grécia do mundo.

 

Artista Plástico

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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