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Inteligência coletiva 

Paulo Rangel, o deputado europeu do PSD conhecido pela truculência e reacionarismo, aproveitou o último congresso do seu partido para propor que no Estado e suas instituições se acabe com o tratamento habitual dos doutores, engenheiros e arquitetos.

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Por uma vez disse uma coisa acertada.

 

Esse tipo de tratamento tão enraizado, a ponto de as pessoas não o conseguirem evitar mesmo quando se pede para o não fazerem, representa uma forma de separação social, uma demarcação de estatuto que divide os cidadãos em duas classes. A dos senhores doutores e a do senhor Zé ou da dona Maria, na verdade, zés-ninguéns. Trata-se de um tipo de discriminação, similar ao que sucede com a raça, o género ou o estrangeiro. E, tal como nestes casos, resulta num intransponível obstáculo à interação social e à formação do que Francis Heylighen define como Inteligência Coletiva. Ou seja, o contributo da inteligência de cada um para o saber de todos.

 

Mas não basta mudar o tratamento. É necessário mudar o comportamento.

 

O ambiente de interação social que vigora no nosso país, de que o tratamento dos doutores e engenheiros é um tique, conduz a uma forte hierarquização dos relacionamentos. Este é definitivamente um país de chefes e subordinados. Sendo que o chefe assenta a sua autoridade na inacessibilidade e no secretismo. Esta forte hierarquia vigente na maioria das empresas é aliás uma das razões da baixa produtividade das mesmas. Porque a informação não circula e a inteligência não se manifesta. Como afirma Heylighen:  "Quem está no alto pode criticar todos e quem está em baixo não pode criticar ninguém. O resultado é que ninguém lhes presta atenção, por mais inteligentes que sejam as suas sugestões."

 

Dou dois exemplos.

 

A política partidária tende a cristalizar em torno de um pequeno conjunto de pessoas. O séquito que rodeia o chefe, que lhe obedece cega e tanta vez irracionalmente, não consegue pensar fora da caixa como agora se diz. Tanto mais grave quando a complexidade dos problemas exige precisamente que se pense de outra maneira. Esta situação agrava-se com o acesso ao poder. Os ministros deixam de falar com as pessoas, e até com os amigos, recebendo cada vez menos "input" do exterior. A não ser o que chega através das manifestações, grupos de pressão e cunhas. Como aliás se viu recentemente com a cena patética de Eduardo Catroga. As constantes reuniões que se realizam, as aparições dos ministros por esse país fora, resumem-se na verdade a simulacros de interação social, desenhados para a televisão e sem nenhum resultado prático. Não há conversa. Há discursos, apressados apertos de mão e uma ou outra frase solta sem destino.

 

Mas não é só na política. As inúmeras conferências que se realizam, praticamente em todas as áreas de atividade e conhecimento, são de utilidade mais do que duvidosa. Habituado a participar, sobretudo no campo das novas tecnologias e da cultura, observo um comportamento geral de desprezo pelas ideias dos outros e incapacidade de se estabelecer um mínimo de diálogo crítico, quer com os pares quer com o público. A maioria dos intervenientes está ali para debitar, não para partilhar saber. E são muitos, sobretudo individualidades, que falam e se vão logo embora, sempre sem tempo para ouvir e aprender alguma coisa.

 

Em suma, este modelo de circuito fechado não funciona. As redes sociais têm dado o seu contributo, mas não basta. É urgente mudar o comportamento para que a inteligência coletiva se possa manifestar.

 

Artista Plástico

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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