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Moramos no absoluto

A França é, por estes dias, um excelente exemplo das perniciosas incongruências que afetam a Europa.

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A França é, por estes dias, um excelente exemplo das perniciosas incongruências que afetam a Europa. Por um lado, no caso da expulsão dos ciganos, temos o pior da conceção nacionalista, que divide as pessoas em nós e eles, sendo que esses "eles" genéricos são invariavelmente perseguidos e maltratados. Ao visar uma comunidade inteira e não presumíveis prevaricadores objeto de um processo judicial, formal e transparente, e portanto com direitos de defesa, o governo francês promove a xenofobia e, em bom rigor, não anda muito longe das posições da extrema-direita e do fascismo. Onde fica a cidadania europeia?

Do outro, temos a esquerda a recusar o inevitável aumento da idade de reforma, consequência óbvia do prolongamento da vida. Basta dizer que a expectativa de vida na França é agora de 80 anos, enquanto na década de 50 era de 65. O resto da Europa segue o mesmo padrão.

A questão não está simplesmente em garantir a sustentabilidade da segurança social, mas prende-se, sobretudo, com a própria atividade humana. Não faz sentido que uma pessoa perfeitamente capaz não possa continuar ativa e a dar o seu contributo e, pelo contrário, deva remeter-se a um estado de entorpecimento terminal até finalmente morrer.

Que a sociedade caminhe para melhores condições de trabalho, mais oportunidades nas escolhas profissionais, melhor formação e remunerações mais justas, é uma evidência. Mas que não se retirem consequências do extraordinário prolongamento da vida, é incompreensível e, acima de tudo, uma estupidez. Quanto talento, inteligência e criatividade não se perde com o afastamento, compulsivo, de tanta gente?

Estes dois exemplos são reveladores do principal problema que afeta a Europa. Fazendo aqui um paralelo com a teoria da evolução natural, é manifesta a dificuldade de adaptação às novas condições ambientais. Sobretudo nas sociedades mais antigas, onde o peso das tradições e hábitos dificultam a aceitação do novo, muitas pessoas tendem a considerar que é possível manter certos modos de vida quando as bases em que assentavam esses modos se alteraram, nalguns casos radicalmente.

Estamos visivelmente a atravessar um momento de transição evolutiva. Quando, devido aos avanços tecnológicos, as coisas que afetam as vidas andam muito mais depressa do que as ideias que as enquadram. No essencial temos hoje poderosos e novos meios de comunicação global, temos tecnologias que ampliam a nossa inteligência e capacidades, temos um vastíssimo leque de novas oportunidades, mas estamos ainda dominados por velhas ideias. Na política, nas empresas, na cultura, predomina um conjunto de princípios e conceitos que nada têm já a ver com a realidade.

Na Europa a ideia de país soberano contradiz a própria natureza do projeto europeu que não pode deixar de caminhar para alguma forma de federalismo. Veja-se a reação violenta da esquerda e de alguma direita ao "visto prévio" dos orçamentos nacionais. Mas que outra maneira existe de eficazmente impedir as tentações eleitoralistas locais e consequente derrapagem do Euro? Ou é preferível deixar as coisas andar e depois impor planos de austeridade, como sucedeu com a Grécia?

A recusa em aumentar a idade de reforma assenta numa ideia de imutabilidade das condições de existência, como se a natureza mesma da sociedade humana não fosse a mudança constante e imparável.

Mas, na minha perspetiva de ator cultural, é no campo da cultura que vejo o maior obstáculo à evolução social. A cultura sempre foi a componente avançada da sociedade. Feita por insubmissos e visionários, a cultura servia para abrir as mentes, alargar horizontes e inovar comportamentos. Mas hoje o grosso do discurso cultural tornou-se conservador, defendendo tradições, velhos hábitos e um humanismo pindérico que não tem em conta a própria transformação do humano investido por tecnologias que lhe aumentam a inteligência, a criatividade e até o próprio corpo.

Enfim, precisamos de um novo futurismo. Como dizia Marinetti: "Porque havemos de olhar para trás, quando aquilo que queremos é deitar abaixo as portas do Impossível? O Tempo e o Espaço morreram ontem. Moramos no absoluto, porque já criámos velocidade eterna e omnipresente."

Este artigo de opinião foi escrito em conformidade com o novo Acordo Ortográfico.

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