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Leonel Moura leonel.moura@mail.telepac.pt 16 de Agosto de 2013 às 00:01

Mudanças radicais

Nesta fase a automação generalizada afeta sobretudo a mão-de-obra barata, pois, na verdade, os operários são vistos como meros componentes mecanizados. É de prever que em breve China e Índia venham a ter um problema de desemprego e consequente desaceleração de crescimento.

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Aumentar a idade da reforma pode parecer uma boa ideia para resolver o problema da falta de receita da Segurança Social, mas é duvidoso que tenha alguma eficácia. Os argumentos a favor de uma tal medida são triviais. Mais tempo de trabalho significa mais descontos e menos reforma. O aumento da esperança de vida está a sobrecarregar os encargos do estado. As pessoas estão ativas até mais tarde e não se justifica irem para casa sem nada que fazer. 


Mas este simplismo não tem em conta outros fatores importantes. Sobretudo os que se prendem com a revolução tecnológica em curso. Porque, ao contrário do que alguns imaginam, esta não é uma revolução como as outras. Estamos em vias de reformular radicalmente a essência do ser humano e a sua existência coletiva sobretudo na forma como a sociedade se organiza em torno do trabalho.

A velha separação de classes caminha agora para uma divisão ainda mais profunda. Os que têm posses permitem-se agir sobre a sua própria biologia, precavendo doenças e prolongando o tempo de vida. Ainda recentemente foi notícia a atriz Angelina Jolie que, ao detetar geneticamente uma probabilidade de cancro da mama, removeu os seios substituindo-os por próteses. Louvou-se a coragem, mas omitiu-se o significado de tal operação. Jolie deu visibilidade à já praticada, ainda que rudimentar, reconfiguração artificial do corpo, num ato só permitido aos que têm meios e acesso ao conhecimento.

Vamos assim assistindo à implementação de um upgrade da espécie humana, o qual com o tempo irá dar origem a dois tipos de humanos. Os que continuarão a depender do lento mecanismo evolutivo darwiniano e os que conseguirão acelerar essa evolução por meios artificiais. Em poucas gerações existirão humanos vulgares e humanos aperfeiçoados. É de prever que estes, para além de terem menos doenças e viverem mais tempo, se distingam também gradualmente na sua morfologia. Brancos, louros, altos, atléticos, mais bonitos, segundo padrões estabelecidos pelas elites.

Mais evidente, mesmo se ignorada, é a alteração no mundo do trabalho. A tecnologia não está só a substituir o trabalho mecânico, está a criar um tipo de produção que praticamente dispensa o humano. Computadores e robôs são já hoje uma importante força produtiva no mundo. Ao contrário do que sucedeu no passado, em que uma nova tecnologia criava novas e diferentes atividades, a presente revolução gera máquinas cada vez mais autónomas e eficazes que dispensam a participação humana. Algumas das mais rentáveis empresas do mundo, Google, Facebook, Apple, Amazon, empregam poucas pessoas. Na indústria temos hoje muitas fábricas altamente robotizadas, sem operários e com uns poucos engenheiros.

Nesta fase a automação generalizada afeta sobretudo a mão-de-obra barata, pois, na verdade, os operários são vistos como meros componentes mecanizados. É de prever que em breve China e Índia venham a ter um problema de desemprego e consequente desaceleração de crescimento. Mas não serão os únicos. Todos os países que apostam na mão-de-obra barata e desqualificada sofrerão as consequências da primeira vaga da automação. Depois será a vez da extinção (humana) de outras tarefas um pouco mais sofisticadas, nos serviços, gestão, direção mesmo. O mundo caminha assim para uma nova era em que o trabalho humano não é mais o motor organizador da vida económica e social.

É por isso que as soluções simplistas dos baixos salários e aumento da idade da reforma estão em contraciclo com a realidade. O empobrecimento que daí advém tenderá a reforçar ainda mais a baixa qualificação geral e a inutilidade prática das pessoas para o processo produtivo.

Seria portanto aconselhável avançar na direção posta. Reduzindo o tempo de trabalho, permitindo que novas ocupações, sobretudo nos setores cultural, do turismo, ambiental e do conhecimento, possam emergir numa espécie de segunda vida, lúdica e criativa, em vez da atual perspetiva de uma improdutiva reforma.

Uma coisa é certa. Esta lógica obtusa de tentar solucionar novos problemas com velhas ideias só nos conduz ao desastre anunciado.

Artista Plástico
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Este artigo de opinião foi escrito em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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