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Leonel Moura leonel.moura@mail.telepac.pt 03 de Maio de 2013 às 10:09

Nova indústria

Esta semana visitei uma fábrica de tipo novo. Foi em Filadélfia onde estive a dar umas aulas e rever a obra de Marcel Duchamp. Sobretudo a muito original porta trazida de Cadaqués, por onde se espreita por um buraco para contemplar uma cena extravagante.

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Esta semana visitei uma fábrica de tipo novo. Foi em Filadélfia onde estive a dar umas aulas e rever a obra de Marcel Duchamp. Sobretudo a muito original porta trazida de Cadaqués, por onde se espreita por um buraco para contemplar uma cena extravagante. É daquelas coisas que é preciso ver ao vivo. Uma foto não basta.


Pareceu-me importante dar conta da visita à referida fábrica porque pode ser útil para aqueles que não se resignam perante este drama que Portugal vive, e desejam pensar e agir com visão de futuro.


No essencial esta nova fábrica, apropriadamente intitulada "NextFab", consiste num conjunto de máquinas, várias de base digital mas outras não, com as quais é possível fabricar praticamente tudo. Tem similaridades com os chamados FabLabs, uma invenção do MIT, mas com uma variante importante. A componente digital, crítica nos FabLabs, não é aqui determinante. A ideia forte está na diversidade e acessibilidade dos equipamentos.


Na indústria convencional as máquinas são concebidas para cumprirem uma única e repetitiva função. Cada nova produção exige normalmente uma reconfiguração importante da maquinaria e dos processos. Ao invés, neste novo tipo de fábrica pode fazer-se em simultâneo uma bicicleta, um saca-rolhas, uma camisola ou desenvolver um novo polímero. As máquinas são muito versáteis e de elevada capacidade combinatória.


Mas, mais do que os equipamentos, é a componente uso que se distingue radicalmente dos modelos tradicionais, assentes na exclusividade da propriedade e na organização e decisão em pirâmide.


A nova fábrica é acessível a qualquer pessoa, quer na modalidade de auto-produção, em que o próprio opera os equipamentos, ou contratando pontualmente um serviço de assistência. O modelo de negócio segue estas ideias e é por isso bastante original. Assenta numa carteira de associados que, através do pagamento de uma cota incomparavelmente menor do que o investimento em causa, utilizam livremente e sem mais custos todos os equipamentos. Estes são portanto partilhados e utilizados de forma bastante mais eficaz e produtiva do que é habitual. A propriedade exclusiva não é económica nem muito inteligente. Uma máquina, um qualquer equipamento ou, por exemplo, o nosso carro estão na maior parte do tempo parados. Não faz qualquer sentido. A partilha é muito mais lógica e eficaz.


Outras considerações determinam também a inevitável emergência deste novo tipo de fábricas. O gosto muda velozmente, a inovação constante altera comportamentos e necessidades, osproblemas sociais, ambientais e económicos crescem em complexidade. Faz cada vez menos sentido continuar a produzir em massa, quando as pessoas desejam diferenciação. Faz cada vez menos sentido impor uma determinada solução quando as pessoas gostariam de poder escolher, desenhar, conceber a sua.


Existem para além disso problemas concretos que exigem uma mudança. A produção em massa gera imensos desperdícios, precisa de enormes áreas de armazenagem, requer uma sofisticada e onerosa rede de transportes. É, além do mais, ambientalmente insustentável. Por isso as fábricas do futuro terão forçosamente de ser muito diferentes.


A crise que estamos a atravessar não é boa, nemaceitável. Mas porque implica a reconversão de muitas atividades e modelos de negócio, permite que se encare seriamente uma alteração profunda dos próprios modelos de produção. Que sirva para alguma coisa. A indústria do futuro será ligeira, dispersa, diversificada e sobretudo acessível. Os equipamentos pesados, as grandes linhas de montagem irão dando lugar a pequenos centros de produção que funcionarão ao virar da esquina. Os poluentes e inacessíveis complexos industriais tenderão a desaparecer. Assistiremos a uma espécie de regresso da pequena oficina de bairro, só que altamente sofisticada e, mais importante, à disposição de todos. Isto vai mudar muito o universo produtivo e é melhor estarmos todos preparados. Depois não digam que não avisei. 

 

 

 

Este artigo de opinião foi escrito em conformidade com o novo Acordo Ortográfico.


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