A carregar o vídeo ...
Outros sites Cofina
Notícias em Destaque
Opinião
Leonel Moura leonel.moura@mail.telepac.pt 27 de Outubro de 2016 às 20:35

O PSD e a entropia

A direita mantém-se acantonada nalguns chavões e tanta vez em flagrantes contradições. Campeã dos cortes hoje é contra eles. Campeã do empobrecimento geral hoje quer mais distribuição de riqueza.

  • Assine já 1€/1 mês
  • 7
  • ...

Por estes dias as televisões enchem-se de pequenos crimes fortuitos. Não que a sua ocorrência tenha aumentado ou sejam particularmente chocantes, mas porque servem perfeitamente a necessidade de preencher o tempo de antena cada vez mais vazio de verdadeira informação e conteúdos úteis.

 

Os crimes interessam às pessoas. É o nosso lado voyeurista. Mas a maneira como são explorados pelas televisões tornam o exercício insuportável. Repete-se a mesma história vezes e vezes sem conta, fazem-se constantes diretos sem que haja qualquer informação nova, convidam-se especialistas para comentar e desenvolver puras especulações.

 

É então que a entropia entra em funcionamento. O que num primeiro momento foi uma excitação vai decaindo até se tornar num incomodativo ruído de fundo.

 

Este fenómeno está presente em muita da comunicação atual. A jornalística, mas também a política. A repetição das desgraças conduz ao desinteresse geral. Veja-se a guerra na Síria ou a sorte dos refugiados no Mediterrâneo. De tempos a tempos, uma imagem mais horrenda, um menino afogado na praia, um menino absorto com o bombardeamento, volta a suscitar comoção para logo de seguida se tornar ruído.

 

Se no jornalismo não parece haver noção do efeito da entropia na degradação das mensagens, na política ainda menos.

 

Veja-se o caso de Passos Coelho. Começou por centrar todo o seu discurso no facto de ter ganho as eleições e não o deixarem governar. Andou meses nesse queixume. A entropia tratou do assunto e até ele se esqueceu do que queria dizer. Depois, seguiu-se o anúncio da catástrofe iminente que dura até hoje. Mas cada dia que passa e a catástrofe não acontece, o argumento vai perdendo força até se tornar ridículo. Já nem os apaniguados têm paciência para o ouvir.

 

Esta ideia de insistir até à exaustão numa mesma tecla é típica das posturas políticas muito formatadas, o PC por exemplo, ou muito primárias, o caso do PSD de Passos Coelho. Ora a complexidade da realidade obriga a uma capacidade adaptativa, sem perder de vista princípios fundamentais. Até o PC o entendeu e hoje dá um importante contributo para a nossa democracia.

 

Pelo contrário, a direita mantém-se acantonada nalguns chavões e tanta vez em flagrantes contradições. Campeã dos cortes hoje é contra eles. Campeã do empobrecimento geral hoje quer mais distribuição de riqueza. Quanto mais o repete mais o ruído vence.

 

Para quem não está familiarizado com o conceito um exemplo pode ajudar. Um cubo de gelo é um objeto ordenado, geométrico, evidente. Com a temperatura ambiente vai-se diluindo, as arestas arredondam, a geometria desfaz-se até se tornar numa pequena poça de água. A entropia é isso, essa passagem da ordem para a desordem. O PSD de Passos Coelho é hoje um cubo de gelo que descongela a ponto de se tornar irreconhecível.

 

É por isso que anda tanta gente preocupada. No próprio partido sobretudo. Já não se trata de saber que é preciso mandar Passos Coelho embora, mas quando. Imagino que alguém ande a fazer contas. Afinal a geringonça está para durar e avançar agora, antes das eleições autárquicas, pode ser um erro fatal. Por isso se espera e se desespera.

 

No PS há também quem gostaria de ver uma mudança rápida no PSD. Sobretudo na ala mais à direita ou pelo menos na ala que detesta a restante esquerda, por convicção ou memória das tantas tropelias que esta fez ao Partido Socialista. Mas não vai acontecer tão cedo. A entropia continuará a fazer o seu serviço até do PSD só restar um charco informe.

 

Artista Plástico

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

Ver comentários
Mais artigos do Autor
Ver mais
Outras Notícias