Leonel Moura
Leonel Moura 17 de março de 2016 às 20:35

Pobre Brasil rico

O Brasil está à beira de uma guerra civil. Sobretudo porque desta vez um golpe militar não ficará sem resposta popular, num contexto em que as elites exprimem com frontalidade o ódio aos pobres e a sua oposição a qualquer política social.

O argumento maior da campanha contra Dilma, Lula e o PT é a corrupção. Mas trata-se de uma desculpa. A corrupção no Brasil é transversal, cultural, afetando todo o campo político sem exceção. Numa lógica matemática. Quem está no poder aproveita, quem está na oposição é contra. Como alguém disse, com uma ligeira diferença: a direita rouba e fica com tudo; a esquerda rouba mas distribui alguma coisa.

 

Sucede que muito provavelmente a corrupção no Brasil não é superior à que sucede em tantos outros países e, em boa verdade, a que vai pelo mundo. Convenhamos. A corrupção não é um desvio do sistema, mas um mecanismo essencial da dinâmica capitalista. Pode ser mais primitiva ou mais sofisticada mas está presente em muitos atos das empresas e dos governos. A vasta maioria dos negócios não se faz sem alguma forma do que podemos perfeitamente chamar corrupção. O acesso privilegiado a quem decide; a sobrevalorização dos benefícios e desvalorização dos riscos; os interesses particulares que podem ser dinheiro mas também carreira ou poder; os compadrios e amiguismos tanta vez apresentados como sinergias; a oportunidade que com frequência é um oportunismo, enfim.

 

Veja-se um exemplo bastante corrente. A chamada diplomacia económica. Quando termina a diplomacia e começa o favorecimento? A fronteira é ténue. Ou que dizer da necessidade de investimento que leva todos os governos a oferecerem vantagens e benesses às empresas? E no campo financeiro? Por cá basta pensar nos casos BPN, BES ou Banif. Má gestão ou corrupção? Ou ainda o caso da ex-ministra Maria Luís Albuquerque que mal terminado o mandato passa a trabalhar para uma empresa que pode ter beneficiado com a sua ação. É difícil estabelecer limites.

 

Têm por isso razão os que afirmam que ao manter margens de indefinição o legislador favorece a corrupção. Sobretudo os mais poderosos economicamente, que têm batalhões de advogados à procura dos interstícios das leis, são os mais favorecidos.

 

De qualquer modo o que se passa no Brasil tem pouco a ver com corrupção. Trata-se de política. Pura, dura e suja. A direita não aceita as sucessivas derrotas eleitorais e quer regressar ao poder o mais depressa possível. A bem ou a mal. Nem que seja preciso recorrer a um golpe militar já que o judicial está em curso. Este é aliás outro ponto importante. A forma como a justiça no Brasil tem atuado não é isenta. Tal como cá o próprio sistema judicial não parece ser capaz de cumprir a lei, enviando para os media informação que devia permanecer em segredo de justiça. Pode animar o pagode e dar trunfos aos mais excitados, mas é péssimo para o país e mina irremediavelmente o Estado de direito.

 

Contudo dois outros aspetos da crise brasileira são particularmente chocantes. O comportamento das elites económicas e a cegueira de alguma gente intelectual e que se diz de esquerda.

 

Choca assistir à indigência cívica, democrática e moral de muitos ricos que, no essencial, protestam pelo facto do PT de Lula e Dilma terem tirado milhões de brasileiros da miséria. Uma senhora queixa-se de ter de pagar mais uns quantos reais aos empregados. Outros, vestidos a rigor, pedem justiça social ao mesmo tempo que levam uma criada negra para empurrar o carrinho do bebé. Há quem exija o fim da democracia e apele abertamente ao golpe militar. Querem de volta a ditadura para reprimir e atirar de novo para a miséria absoluta os já pobres. Choca também o racismo em manifestações praticamente só de brancos num país de maioria não-branca. Esta elite que vive acossada, fechada nos seus condomínios militarizados, que anda de helicóptero para evitar por o pé na rua, não parece ter aprendido nada. Nem que seja aquela máxima. Quando os ricos não tomam conta dos pobres, estes tomam conta dos ricos.

 

Mas não deixa também de ser chocante ver tanta gente, supostamente civilizada, culta e que até se pensa de esquerda, juntar-se à turba fascista, confundindo povo com uma elite sórdida. Definitivamente estão a semear ventos. Esperemos que não sejam colhidos pela tempestade se ela aí vier.

 

Artista Plástico

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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