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Porque perdemos a guerra

Para quem não vê telejornais ou não seguiu com atenção esta particular notícia, recapitulo. Quinze militares ingleses foram capturados pelo Irão sobre o pretexto de terem entrado nas suas águas territoriais. A Inglaterra logo seguida dos Estados Unidos ex

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A Europa segue um pouco mais tarde, como sempre, com similar indignação e intrepidez. Poucos dias passados aparecem na televisão iraniana alguns desses militares a comer, rir, dizer que são muito bem tratados, o povo é fantástico, e acima de tudo, apontam mapas confirmando que de facto tinham entrado no Irão.

Sucedem-se novas ameaças do Ocidente cada vez mais veementes e já claramente a afiar facas. Cita-se as convenções de Genebra que o próprio ocidente não cumpre. Inesperadamente o Irão liberta os quinze marinheiros numa cerimónia onde estes recebem “souvenires” e um aperto de mão do próprio Mahmoud, presidente do sítio.

De regresso à british pátria são aclamados como heróis, distribuindo muitos beijos e abraços a funcionários, familiares e amigos. Após um breve descanso abrem conferência de imprensa para desdizer tudo o que afirmaram ao mundo poucos dias antes, alegando que foram sujeitos a uma grande pressão psicológica, vulgo tortura, de que se destacam dois factos particularmente horrendos e a saber: vendaram-lhes os olhos e foram colocados numa cela que tinha o chão de cimento.

Perante tal drama humano logo os media, sempre interessados em coisas transcendentes, pagaram algumas centenas de milhares de euros para os heróis contarem a sua história. A mulher por ser exemplar único recebe mais que todos os outros juntos. A coisa promete portanto durar o tempo das tiragens e audiências.

Chegados aqui é evidente para qualquer pessoa cujo cérebro ainda funcione que com militares destes nunca se poderá ganhar nenhuma guerra, seja ela justa ou injusta. As guerras perdidas do Iraque e do Afeganistão são disso um óbvio e trágico exemplo. Apesar da utilização sistemática da grande brutalidade, do assassínio “tout court” e da tortura sistemática, ingleses, americanos e outros representantes da vetusta civilização ocidental não conseguem vergar um inimigo muito mais fraco na manu militar, mas incomensuravelmente mais forte nas convicções, sejam elas de tipo patriota, sejam as que emergem do fanatismo religioso.

Isto acontece em parte porque a tropa ocidental é hoje toda mercenária. Estes jovens ingleses que partem para a batalha não levam bandeira erguida, nem Pátria, nem sequer razão, mas tão só a ideia comum e bastante curial, diga-se de passagem, de fazer algum dinheirinho rápido para compor a vida. O mesmo se passa com os americanos, na sua maioria de origem sul-americana ou negra, ou seja, desse pelotão dos desfavorecidos do grandioso mas nem sempre acessível sonho. Há pois desde logo uma enorme diferença entre os que se batem em regime de trabalho temporário e os que dão a vida, em muitos casos literalmente, por uma causa por muito demente que ela possa parecer a todos nós que vivemos no relativo conforto ocidental. E já dou de barato o facto de nas guerras em curso, no Iraque e no Afeganistão, o Ocidente não ter moralidade nem legitimidade. Os tão apregoados direitos humanos foram suspensos, os crimes sucedem-se a uma velocidade superior à que comporta o alinhamento dos telejornais e no fundo toda a gente se está marimbando para a desgraça dos outros.

Pouco relatado também por um jornalismo cada vez mais incorporado, como agora se diz, e que ajuda a perceber o que realmente se passa no terreno é a realidade da presença militar ocidental em terras do oriente. O grosso da tropa está lá para proteger o resto da tropa. Os “nossos” homens vivem acantonados, cheios de medo, metidos em improvisadas fortificações defensivas de onde só saem para fazer mal à população indefesa ou levar com uma bomba de um qualquer louco mas tenaz suicida.

Só assim se entende que nenhum dos mais singelos objectivos seja atingido. Nem sequer a captura de um velho de barbas que se desloca com a ajuda de uma bengala.

Enfim, toda esta história dos marinheiros ingleses só pode encher de vergonha o ocidente. Pela evidente cobardia, tanto lá como cá, pois em ambos os lados esta gente disse e diz o que lhes mandam, sem mostrar a mínima noção de dignidade e decência. Mas acima de tudo porque revela bem a que ponto de degradação moral se chegou ainda por cima pretensamente em nome da defesa dos valores da democracia, da liberdade e da civilização. Depois admirem-se porque estamos a levar uma verdadeira coça no campo de batalha, apesar de todos os esforços de políticos e jornalistas para mostrar o contrário e enganar a populaça. Por isso um dia destes alguém se lembrará de experimentar outra coisa. E que tal se, em vez de bombas e chacinas, talvez frigoríficos e computadores?

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