Leonel Moura
Leonel Moura 29 de novembro de 2013 às 00:01

Qual economia?

É inadmissível que os professores recusem a sua própria avaliação. É uma luta recorrente, agora reforçada pela ação do mais retrógrado ministro da Educação que o país já viu.

 

A questão é simples. Queremos continuar a fomentar uma economia do século 20, assente na indústria pesada e na mão-de-obra barata e desqualificada, ou pretendemos entrar na economia do conhecimento do século 21?

É uma questão simples, mas de implementação complexa. Não basta falar de inovação e empreendedorismo, é preciso determinação e atos concretos que alterem orientações e metodologias.

Enquanto por cá se discute o corte das pensões ou o aumento do IVA o mundo que conta trata de lançar as bases do novo tipo de economia. Tem-se chamado Economia do Conhecimento por oposto à economia de base industrial, massificada, dependente de matérias-primas esgotáveis. Não se trata de uma ideia nova, cujas raízes encontramos no século passado sobretudo com o aparecimento da Internet e a emergência da economia digital. Mas é cada vez mais um assunto central das estratégias dos governos e outros intervenientes que pensam o futuro.

A economia do conhecimento assenta no capital intelectual, na informação e na capacidade tecnológica. Em tese é possível desenvolver uma economia do conhecimento sem tecnologias, derivadas do saber empírico, por exemplo na agricultura, mas em geral o conceito aplica-se às tecnologias avançadas com destaque para as que resultam da chamada inteligência artificial. Uma sociedade capaz de gerar este tipo de economia precisa de um sistema de educação avançado, laboratórios, grupos de reflexão, I&D, criação de produtos inovadores e de alto valor acrescentado, cultura, muita cultura.

O Banco Mundial publica anualmente um ranking. O de 2012 apresenta no topo a Suécia, Finlândia, Dinamarca, Holanda e a Noruega. Já agora e a propósito de polémicas recentes de notar que Angola está em 143 numa lista de 146 países… Isto sim devia ser motivo de grande preocupação do governo e da elite local. E também de uma estratégia de cooperação mais ambiciosa e benéfica para ambas as partes por parte dos portugueses.

Portugal encontra-se em 34 o que à partida não é totalmente desanimador para um pequeno e pobre país como o nosso. Resta saber se não iremos baixar nos próximos anos uma vez que o atual governo não parece ter a noção da realidade do mundo. Aliás, mais do que os cortes e do empobrecimento material o verdadeiro crime que está a ser perpetrado contra Portugal é precisamente o do retrocesso nas áreas da educação, da ciência e do conhecimento em geral.

Basta um exemplo, numa área dos meus interesses que conheço bem. Em 2011, realizaram-se 55 eventos de robótica. Este ano foram 5.

Os estudos estão feitos, a definição do que é e como se desenvolve uma economia do conhecimento também. A nível europeu esta é uma matéria de permanente debate e troca de experiências. No entanto, por cá deixou de se falar no assunto e os principais partidos praticamente não fazem qualquer referência ao tema. Falta claramente uma visão de futuro privilegiando-se as soluções de curto prazo.

No domínio da educação as dificuldades são conhecidas. Continuamos a ter um elevadíssimo abandono escolar, agora em aumento. Continuamos a ter um ensino formal, repetitivo e pouco criativo. Continuamos a ter um vasto número de professores impreparados para as novas realidades. Outro exemplo. É inadmissível que os professores recusem a sua própria avaliação. É uma luta recorrente, agora reforçada pela ação do mais retrógrado ministro da Educação que o país já viu. Mas isso não impede que se trate de uma luta reacionária incompatível com uma escola evoluída. E que dizer do estrangulamento das universidades?

Bem pode o governo olhar para o lado, fingir que só a finança conta, mas as mudanças são efetivas. O conhecimento deste início do século 21 é essencialmente reprodutivo, ou seja, deriva menos da ideia do saber pelo saber da investigação científica chamada pura, mesmo se fundamental, e é sobretudo determinado pelas aplicações que gera. Daí também a importância das patentes, onde Portugal continua muito débil.

Enfim, a nossa sociedade não parece estar preparada para o que realmente importa de tão perdida que anda com uma impressionante falta de visão estratégica. Adeus futuro.

Artista Plástico

Este artigo de opinião foi escrito em conformidade com o novo Acordo Ortográfico.

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