Leonel Moura
Leonel Moura 21 de fevereiro de 2014 às 00:01

Sem-abrigo: a solução

O Estado do Utah lançou em 2008 um programa para acabar com os sem-abrigo. Solução simples: dar-lhes uma casa. No início o programa foi coberto de ridículo. (...) Mas quando o número de sem-abrigo começou a baixar, (...) outras cidades americanas começaram a implementar programas similares.

 

É aceitável que uma cidade, de um país que se pretende civilizado, tenha centenas de pessoas a dormir na rua? É aceitável que os cidadãos, desta cidade, que têm casa, seja ela melhor ou pior, não se indignem com a situação dos que não têm as condições mínimas de existência, uma cadeira, uma mesa, uma cama, uma torneira, um fogão… coisas afinal tão banais que nem lhes damos qualquer importância. É aceitável que as entidades públicas façam inúmeros estudos, mas não apresentem soluções para este problema?

Nada disto é aceitável. No entanto, só despertamos para esta realidade quando ela passa na televisão, ou, numa noite de diversão caminhamos pelas arcadas, pelos recantos obscuros e aí os vemos encolhidos, enrolados em jornais e trapos.

Em 1996 publiquei um livro, intitulado "Os Homens Lixo", precisamente dedicado a este tipo particular de exclusão social. Foi reeditado em Espanha e França e deu mesmo origem a um filme/documentário de um realizador francês sobre os sem-abrigo de Paris. O título não referia os homens que vivem no lixo, mas se tornam um lixo, um dejeto da sociedade.

Hoje, infelizmente, o tema volta em força por essa Europa fora e, como não podia deixar de ser, também em Lisboa.

Não se trata de uma matéria linear. Há muitas razões para alguém cair na rua e, pior, não conseguir mais sair dela. Mas é evidente que a principal razão é económica. Pessoas que de repente se veem sem qualquer rendimento, sem emprego, incapacitadas de encontrar os recursos mínimos para pagar uma renda e mesmo, nalguns casos, as prestações ao banco. O passo da casa para a rua é por vezes muito pequeno. A sociedade é implacável para quem atinge a extrema miséria.

Há também os que entram numa espiral de degradação, entregando-se à droga ou ao alcoolismo, perdendo o discernimento e tantas vezes o apoio das próprias famílias. E temos ainda os inadaptados, os que não conseguem enquadrar-se nas regras sociais, nos discursos do sucesso e do empreendedorismo, já que nem todo o ser humano se adapta bem às exigências da normalidade. E não deixa de ser menos humano por isso.

De qualquer modo, se a tragédia é individual, cabe à sociedade resolver o problema. Por alguma razão vivemos numa comunidade. Pois tal como dizia no meu livro, não há humanidade sem comunidade. E é mesmo de perda de humanidade que se trata. Dos próprios que se veem excluídos de uma pertença coletiva e de todos nós que nos tornamos cúmplices dessa exclusão. Simplesmente porque nada fazemos.

A maior responsabilidade cabe, no entanto, às entidades públicas, ao estado, aos governos, às autarquias. Alguns já esqueceram mas um cargo público não é um emprego como outro qualquer. É um mandato popular para resolver problemas como este.

Pelo mundo fora têm sido tentadas várias soluções. A maioria de ordem burocrática, por vezes caritativa, frequentemente brutal e policial. Sem sucesso. Curiosamente é dos Estados Unidos, país que a cada noite tem quase um milhão de pessoas a dormir nas ruas, que vem a proposta mais radical. Mas também a mais lógica e efetiva.

A origem do problema pode ser de ordem económica, psicológica ou derivada de algum vício. A condição de sem-abrigo precisa de avaliação e apoio, sobretudo na perceção do verdadeiro problema e possível solução. Os serviços sociais existem para isso. Mas, como se sabe e vê, na maioria dos casos não se resolve o essencial da questão. A falta de habitação.

Com base nesta constatação objetiva o Estado do Utah lançou em 2008 um programa para acabar com os sem-abrigo. Solução simples: dar-lhes uma casa.

No início o programa foi coberto de ridículo. Subversivo para uns, impraticável para outros. Mas quando o número de sem-abrigo começou a baixar, cerca de 75% ao fim de 8 anos, outras cidades americanas começaram a implementar programas similares.

Um dado interessante dos vários relatórios. Manter um sem-abrigo na prisão sai mais caro ao estado do que dar-lhe uma casa.

Lisboa conta com cerca de mil pessoas a dormir na rua e tem milhares de casas abandonadas. Faz sentido?

Artista Plástico


Este artigo de opinião foi escrito em conformidade com o novo Acordo Ortográfico.

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