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Leonel Moura leonel.moura@mail.telepac.pt 28 de Dezembro de 2015 às 00:01

Técnica do golpe mediático

Não quero saber se alguém ganha muito ou pouco, gasta muito ou pouco, tem amigos porreiros ou inimigos obstinados. Mas já quero saber, e muito, se o Estado abusa do seu poder, se no meu país se prendem pessoas para investigar, se não há respeito pela presunção da inocência, se alguns agentes do universo judicial têm agendas privadas, se se cometem crimes em nome do combate ao crime.

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A vida privada do ex-primeiro-ministro José Sócrates é absolutamente irrelevante. Como político deve ser democraticamente julgado pelos seus atos. Já o foi em 2011 quando perdeu as eleições. Como cidadão o seu comportamento só importa quando comete algum crime. Tal como sucede com qualquer um de nós. Nesse caso é à justiça que cabe provar, acima de qualquer dúvida, como dizem e muito bem os americanos, os factos que justificam a acusação. Ora ao fim de um ano continuamos com insinuações e historietas, não há acusação, não existem provas objetivas de atos ilícitos. Pelo contrário, assistimos a uma alucinada campanha de perseguição pessoal, a uma constante manipulação da opinião pública, numa senda sórdida assente numa sistemática violação do segredo de justiça perante a passividade do próprio Ministério Público. E isso sim deve preocupar os portugueses. Porque quando estas coisas sucedem é o próprio regime democrático e o Estado de Direito que estão em causa. Não se pode permitir que um pretenso combate ao crime seja realizado por via de atos criminosos tão ou mais graves do que os factos em questão. É o que fazem os Estados policiais. E ainda menos se pode permitir que a justiça sirva para a perseguição pessoal e política. É o que fazem as ditaduras.

 

Chegados aqui, o mínimo que um cidadão bem formado deve exigir é que seja pronunciada, o mais breve possível, uma acusação contra José Sócrates. Uma acusação fundamentada, com factos objetivos, provas testemunhais e documentais. Caso a acusação não seja feita ou, pior, não passe de meras insinuações como até aqui, é a própria justiça portuguesa que tem de se sentar no banco dos réus.

 

Mas o caso Sócrates é também revelador da situação dos media no nosso tempo. A informação, objetiva, séria e independente, vai perdendo espaço para dar lugar a sensacionalismos e técnicas de manipulação da opinião pública. Não é preciso recorrer a nenhuma teoria da conspiração, aliás, elas mesmo resultado da irracionalidade galopante em que estamos, para se perceber que existe um conjunto de estratégias de comunicação que visa manipular as pessoas. Destaco algumas. A mais usual é a do desvio. Trata-se de dar grande destaque a coisas insignificantes e laterais como forma de distrair daquilo que está realmente em causa. Lança-se uma notícia sobre um facto irrelevante e depois chamam-se comentadores e analistas para debaterem o nada. Durante dias o povo anda entretido com uma ninharia para de seguida se passar à próxima. De substancial fica o zero.

 

Outra técnica, cada vez mais frequente, assenta na infantilização da audiência. Jornalistas, comentadores, políticos e outros intervenientes dirigem-se aos leitores e telespectadores como se fossem crianças. Reduzindo-se a complexidade dos temas a simplismos que não explicam rigorosamente coisa nenhuma. Este é aliás um sintoma preocupante da cultura da nossa época. Expressa tanto nos discursos políticos quanto na publicidade, quase toda infantil e idiota. Assim como na própria cultura que, de dita popular, se tem tornado na realidade "kitsch" e mentalmente indigente.

 

Como corolário desta tendência temos a promoção da estupidez como qualidade. Basta olhar para a lista dos vídeos mais visionados no Youtube, os quais, sem ser preciso recorrer a nenhum estudo académico, dão conta de um mundo povoado por perfeitos imbecis. A estupidez tornou-se aliás numa moda planetária. Que serve para promover marcas, mas também para degradar as democracias.

 

Mas a grande técnica de manipulação de massas assenta na sobrevalorização do emocional em detrimento do sentido crítico. Daí que as intrigas, as insinuações, o diz que disse, as mais declaradas invenções, sejam bem mais importantes do que os factos. Definitivamente a verdade deixou de ser um assunto. A mentira é bastante mais lucrativa.

 

Artista Plástico

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