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Tempo de mudança

Ao reduzir a acção política à crítica indiscriminada de toda e qualquer iniciativa do governo a oposição está a deixar ao PS a representação exclusiva do campo da modernidade e da mudança. Hoje é o PS que tem o discurso mais avançado, mais actualizado e mais positivo. E aquele que não só fala de mudança mas que vai criando as condições para que essa mudança se produza.

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Todos os restantes partidos estão remetidos a uma postura de resistência inconsequente ou à pura maledicência negativista sem nenhuma perspectiva. Nesse processo têm demonstrado uma evidente incapacidade em compreender o mundo actual e, acima de tudo, em propor novas formas de agir sobre ele. As ideias do passado dominam o discurso político da oposição em Portugal. Daí os vazios e as contradições. O PSD perdeu verbo, o CDS evaporou. O Bloco imagina que gritar é ter razão. O Partido Comunista reivindica mais polícias nas ruas, num discurso em tudo similar ao do CDS, enquanto o PSD exige intervencionismo económico muito à maneira da extrema-esquerda. Uma confusão. Toda a oposição desvaloriza o extraordinário investimento nas novas tecnologias, a forte aposta nas energias renováveis, a efectiva desburocratização da administração pública ou as políticas de defesa do consumidor. Prefere-se valorizar os assaltos, o preço do petróleo, a crise financeira nos EUA. Das coisas boas diz-se mal pelos motivos mais estapafúrdios. Pacheco Pereira descobriu que o computador Magalhães não é todo português, coisa horrível evidentemente; outros houve a alertar para os perigos da Internet, um disco já muito riscado aliás. Das coisas más diz-se bem desde que prejudiquem Portugal, os portugueses e piorem a nossa vida colectiva. Com esta lógica admiram-se de não conseguir subir nas sondagens?

A mais recente picardia da oposição foi contra a palavra mudança por ter sido assumida como slogan do PS. Azar deles não terem tido a ideia primeiro. Mas nem podiam pois são, todos por junto, contra. Esquecem que a mudança não é um mero slogan, mas a realidade do nosso mundo. Sendo certo que a sociedade humana sempre foi, pela sua própria natureza, um organismo dinâmico e em mutação constante, a aceleração tecnológica das últimas décadas produziu um tempo em que as mudanças se sucedem a uma velocidade e com um alcance nunca antes visto na história. Na origem está certamente o computador e o que ele significa enquanto ampliação das capacidades humanas e desde logo da inteligência disponível. Mas também as comunicações - que geraram a sociedade de informação, o tempo real e um global efectivo - ou a Internet - que universalizou o saber e introduziu mecanismos inovadores de auto-organização e partilha -, abriram todo um novo panorama de convivência humana, novos modelos de vida em comum, novas formas de trabalho e produção, novos mecanismos de criatividade que entretanto se tornou na mais importante matéria-prima e alterou a própria dinâmica económica. A criatividade é o petróleo do século XXI.

Não compreender estas mudanças, incontornáveis, imaginando que é possível fazer-lhes frente com os modelos do passado é incorrer num erro tremendo, para além de se perder muito tempo inutilmente. Para se concretizar com rigor a ideia de sociedade proposta pelo Partido Comunista e por alguns bloquistas seria preciso, pelo menos, destruir todos os computadores existentes no planeta e deitar abaixo todos os satélites de comunicações. Entre outras coisas que também davam muito jeito como repor um mundo bipolar. Ou seja, regressar a um tempo pré-contemporâneo.

Mas ironia à parte, é evidente a inadaptação destes partidos ao mundo contemporâneo e a falta de respostas com um mínimo de sentido aos seus aspectos negativos. Imaginar, por exemplo, que salvar empresas falidas é proteger os trabalhadores é uma ilusão, para além de uma contradição ideológica já que no fundo está-se sim a salvar capitalistas incompetentes. Imaginar que dar subsídios, para tudo e mais alguma coisa, é uma boa política é esquecer a injustiça dos mesmos face a todos que não os recebem, por cá e noutros continentes. Aliás o subsídio é a arma mais mortífera contra os pobres deste mundo.

Quanto à direita é normal que não tenha nada a dizer sobre a mudança. Esta direita, conservadora e passadista, defende um tempo que já não existe e ainda não tem nada a propor para o século XXI. De facto, para algumas pessoas está a ser difícil mudar de século.

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