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Um Presidente fora do tempo

Há quem diga que o Presidente da República anda a brincar com o pagode. Outros acham que quer simplesmente dar tempo a Passos Coelho para arrumar papéis, negócios e "boys".

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Os mais benévolos dizem que a situação é complexa, ainda que não expliquem onde está a complexidade de existir uma maioria no Parlamento e no outro lado da equação um Governo demitido.

 

Será um pouco de tudo isto, mas este arrastar na tomada de decisão, esta verdadeira incompetência funcional, deve-se antes de mais a uma maneira de fazer política totalmente desajustada do nosso tempo.

 

Cavaco Silva é velho na idade, o que não tem qualquer importância para o caso, mas é sobretudo politicamente velho. No sentido de antiquado, decadente, resistente ao novo. Não por acaso, nestas últimas semanas, em declarações avulsas, refere situações do passado para justificar a inconsistência do seu imobilismo. Como se a realidade fosse estática, como se o panorama político não tivesse mudado substancialmente depois das eleições de 4 de Outubro. A aliança à esquerda é um dado absolutamente novo, sem comparação com nada do que sucedeu desde o 25 de Abril. Ora isso exigiria uma abordagem distinta daquela a que tantos se habituaram. A esquerda à esquerda do PS no gueto, o PS isolado numa tal charneira que sempre foi mais uma camisa de forças do que outra coisa, e a direita a dar cartas, fora ou no Governo. Ou seja, o pântano como disse alguém.

 

Os partidos que assinaram o acordo e geraram uma maioria no Parlamento, e no país, puseram termo a isto. Enterram o antidemocrático arco da governação. Fizeram história.

 

O Presidente que afirmou ter pensado em tudo afinal não tinha manifestamente pensado nesta possibilidade. Pudera, o realmente novo é sempre um inconcebível até suceder. Ao invés de procurar entender a nova condição do exercício do poder, tem tentado por todas as formas resistir, contrariar, remar contra o sentido da história. Sem sentido ou outro objetivo que não seja protelar, gerar instabilidade. É típico. O mundo está cheio de exemplos destes e nunca acabam bem.

 

Para agradar a um terço dos portugueses, Cavaco Silva tem dois terços contra si. Nunca um Presidente foi tão desprezado pela opinião pública, mesmo se o cargo faz com que seja preservado pela opinião publicada e pela maioria dos agentes políticos. Quanto a respeito perdeu-o definitivamente. Basta andar pelas redes sociais que valem o que valem, mas são um sintoma de uma indignação que não para de crescer.

 

Esta incapacidade em entender a realidade está bem expressa no conjunto de consultações que agendou. Patrões, dois sindicalistas, banqueiros e economistas. Como se o país se resumisse a colunas de deve e haver. Não chamou cientistas, professores, alunos, artistas, operários, desempregados. Aliás, não consultou uma única mulher. Chamou os mesmos de sempre. Uma pretensa elite da área da finança que domina Portugal e o tem levado aos maiores desastres sociais e económicos. Vide o número de ex-ministros das Finanças.

 

Esta dança de penitentes consultores tem um outro significado. Cavaco Silva sinaliza que a opinião de meia dúzia de pessoas vale tanto (ou mais) do que os milhões de portugueses que exerceram o seu voto. É grave para um Presidente que se diz de todos, mas só dá ouvidos a alguns e muito poucos.

 

Qualquer que seja o desfecho desta historieta fica claro que este Presidente não está à altura do seu tempo. Pior. Faz-nos perder tempo.

 

Mas não é o único. A direita, agora francamente minoritária, enveredou pelo pior caminho com a derrota nas eleições. Passos Coelho, bastante talentoso no canto e noutras artes de palco, tem aqui o seu momento de ditador africano, recusando largar o poder mesmo depois de objetivamente ter perdido as eleições. É caso para se chamar a ONU a intervir.

Não por acaso esta direita faz constante apelo à tradição. A tradição é o recurso por excelência daqueles que querem praticar o mal sem justificação ou racionalidade. Acontece nas touradas, na caça, naqueles que batem nos filhos e na mulher, nos que fabricam chouriços. Para infelicidade deste pobre país sucede agora também na política. Esta direita tornou-se francamente perigosa para a saúde pública.

 

Artista Plástico

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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