Leonel Moura
Leonel Moura 02 de março de 2017 às 20:40

Viver nunca é fácil

Somos afogados por urgências que não são nossas. Desejos falsos. Vidas fictícias, como nos filmes em que tudo é a fingir mas parece verdadeiro a ponto de fazer chorar e rir.

Quem é ativo e vive no mundo tem muita dificuldade em desligar. Porque hoje, mais do que nunca, só conseguimos existir num permanente alerta a tudo o que se passa à nossa volta, em contacto ininterrupto com redes, pessoas e ideias, para aprender, para produzir, enfim aparentemente para conseguirmos fazer alguma coisa das nossas vidas. E, no entanto, quantas vezes desejamos fechar tudo, não querer saber dos outros nem dos extraordinários feitos das novas tecnologias, não querer ver, ouvir, talvez mesmo nem pensar sobre tanta coisa que na realidade, se pensarmos muito, percebemos que são profundamente irrelevantes.

 

A sociedade da informação vai dando lugar a uma ansiedade insuportável. Logo pela manhã é preciso saber, pelo Facebook, quem faz anos para enviarmos os parabéns. Por amizade firme em muitos casos, noutros só por educação ou rotina. Ficamos satisfeitos porque o nosso amigo 723 anda a passear por Veneza. Coisa que conhecemos através da bela foto em que aparece abraçado à mulher, sorridente, tirada na Praça de São Marcos e que surgiu em simultâneo no Facebook, no Twitter e no Instagram. E que dizer das sábias citações de gregos antigos ou dos conselhos de saúde e culinária? Quem resiste à revelação de que o melão de São Caetano, um vegetal asiático, cura o cancro em poucos dias? Ou como ficamos colados ao televisor tão-só porque em Los Angeles, do outro lado do planeta, alguém trocou os cartões dos Óscares. Facto aliás repetido "ad nauseam", com os mesmo esgares, risos e imagina-se alguns choros nos bastidores. Para já não falar das peripécias quotidianas de um Donald que tem tudo de desenho animado e não para de emitir tweets alucinados. Já agora, sem ir mais longe, ficando pelo burgo à beira-mar plantado, que dizer do insuportável que se tornou o dia a dia da política e, do jornalismo que dela se alimenta, que não passa das intrigas, historietas, muito tumulto que uma vez avaliado com a racionalidade que nos resta dá nada, zero.

 

Somos afogados por urgências que não são nossas. Desejos falsos. Vidas fictícias, como nos filmes em que tudo é a fingir mas parece verdadeiro a ponto de fazer chorar e rir. Só que agora, tal como previu Guy Debord o falso do cinema tornou-se a verdade da vida pública. Nesse afogamento perdemos o sentido das coisas, andamos como zombies. Não por acaso temática de muitos filmes de sucesso de bilheteira.

 

Cansa. Tudo isto cansa. E mesmo assim não conseguimos desligar.

 

Atrevo-me a prever a emergência de uma nova espécie de quietismo. Já não de contemplação religiosa, mas simplesmente no não fazer nada. Coisa que, na minha área, Marcel Duchamp defendeu e praticou com particular talento. Para alguém tão influente nas artes tem meia dúzia de obras. Cada uma de género diferente. No resto foi um engenheiro do tempo perdido como lhe chamou Pierre Cabanne. Passou os dias a jogar xadrez.

 

Quero com isto dizer ser bem provável que venha a surgir uma geração que recuse fazer parte da atual narrativa dos empreendedores, da inovação sem limites, das start-ups, das apps para tudo e para nada, e tanta vez para nada, da dependência do estar online, dos chats, dos comentários sobre tudo e sobre nada, e quase sempre sobre nada, e das fotos de cães e gatos.

Eu próprio, que gosto de robôs e faço campanha por uma nova arte, começo a estar farto. Sobretudo porque com tanta coisa nova e fascinante, já nada me surpreende. Mas isto deve ter sido alguma coisa que comi ao almoço. Para a semana devo estar melhor.

 

Artista Plástico

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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