Luis Nazaré
Luis Nazaré 24 de fevereiro de 2016 às 19:08

Estranha forma de vida

Os golpes traumáticos na qualidade de vida da maioria da população tiveram uma espécie de efeito anestesiante, tanto à dor como ao prazer.

Muitos pensaram que a separação de águas entre os blocos de direita e de esquerda iria fazer regressar a discussão política, pura e dura, às mesas dos cafés. Imaginava-se que os portugueses, cansados de centrão e conversa mole, estariam ansiosos pelo debate ideológico e assistiriam com redobrado interesse aos confrontos parlamentares. Nada de mais ilusório. Ao contrário das percepções do mundo político, o povo pouco ou nada quer saber dos arranjos e desarranjos partidários. O ciclo de desencanto pragmático não terminou.

É a aritmética pessoal que domina. Das discussões sobre o projecto de Orçamento do Estado, a única coisa que interessa é o previsível impacto nas contas domésticas - folha de vencimentos, escalões do IRS, mudanças no IVA, preço dos combustíveis, abatimentos fiscais e quejandos. O resto, os temas onde o confronto ideológico é mais cortante e menos tangível, passa ao lado das preocupações gerais. Dir-se-á que o mesmo acontece na generalidade dos países avançados, o que é parcialmente verdade, mas o fenómeno português tem contornos de desalento e inquietude que lhe são muito próprios.

O BES deve ser vendido a desconto ou nacionalizado? Tanto faz, desde que os depósitos estejam garantidos. A banca vai parar às mãos dos espanhóis? É indiferente, desde que a rede Multibanco se mantenha. A TAP deve ser pública, privada ou de capital misto? Tanto faz, desde que haja aviões e tarifas aceitáveis, qualquer que seja a insígnia. A dívida pública deve ser reestruturada? Dava jeito, mas se os credores recusarem não é grave, o que interessa é mantermo-nos no euro. Haverá mais austeridade? Talvez, mas é melhor não pensar nisso. O futuro é incerto? Sim, mas não foi sempre esse o nosso fado?

Este triste pragmatismo, tão peculiar entre os portugueses, acentuou-se dramaticamente nos últimos anos. É que a troika não se limitou a presentear-nos com um severo plano de resgate, incutiu-nos uma dose cavalar de espírito de resignação, que a direita geriu com invulgar frieza e sentido de oportunidade. A pretexto da austeridade, foi desencadeado um ataque sem precedentes à função pública, cujos efeitos depressivos perdurarão por muito tempo, foram privatizadas a desconto empresas onde o Estado tinha a obrigação de manter uma presença relevante (REN, ANA, Fidelidade), foi eliminado o investimento público e abandonada a rota da modernização administrativa, deteriorando-se a qualidade dos serviços. Nada aconteceu por acaso - o objectivo era o de reduzir a coisa pública à sua expressão mínima, um desígnio ideológico que o neoliberalismo sempre teve como principal bandeira.

Como entender então a apatia dos portugueses face às actuais medidas de reversão dos estragos? Porque não rejubilam? Por um lado, porque os golpes traumáticos na qualidade de vida da maioria da população tiveram uma espécie de efeito anestesiante, tanto à dor como ao prazer. Por outro, porque intimamente receiam que a economia não recupere tão depressa e que novas medidas de austeridade venham a ser necessárias. É a incerteza que nos mata.

 

Figura do mês: Mário Centeno

 

Ser ministro das Finanças não é tarefa fácil em parte alguma. Sê-lo no actual contexto político e económico só está ao alcance de um espírito missionário. Mário Centeno conseguiu, até agora, a quadratura do círculo - fazer passar a proposta de Orçamento do Estado em Bruxelas e vê-lo aprovado com os votos favoráveis do PCP e do Bloco de Esquerda.

 

Manter o rigor nas contas públicas, apoiar o esforço de modernização do Estado, dar sinais estimulantes aos agentes económicos, ensaiar uma renegociação da dívida, contentar os sindicatos da função pública, buscar soluções para o sector financeiro, controlar a máquina fiscal e gerir a contento da Zona Euro essa abstracção chamada défice estrutural é seguramente uma missão de dificuldade máxima. 

 

Ainda mal refeito das emoções do OE 2016, Centeno terá de começar já a pensar no exercício 2017. Verá, em seis meses, confirmados os pressupostos optimistas de que partiu para a sua jornada? Resistirá às pressões despesistas dos compères de coligação?

 

Número do mês: 252 mil milhões

 

A Alemanha bateu um novo recorde nas suas contas externas. Em 2015, o excedente comercial alemão atingiu o fantástico número de 252 mil milhões de euros (contra os 212 mil milhões do exercício 2014), qualquer coisa como 150% do PIB português. Uma vez mais, a Comissão Europeia fará de conta que está preocupada com este desequilíbrio e com os seus efeitos prejudiciais sobre a competitividade dos restantes países da Zona Euro. Uma vez mais recordará à senhora Merkel, just for the record, que um superavit acima de 6% do PIB ultrapassa os limites do aceitável. E uma vez mais a senhora Merkel, com o sorriso aprovador dos holandeses, assobiará para o lado.

 

Não é crível que alguma vez os alemães venham a tomar medidas efectivas de reequilíbrio, designadamente através de estímulos à procura interna, assim como Bruxelas nunca desencadeará o Procedimento por Desequilíbrios Macroeconómicos. Verdade se diga que a aplicação de sanções a um país por causa do sucesso - em boa medida reputacional - das suas empresas seria algo de bizarro.

 

Economista; Professor do ISEG/ULisboa

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