Luis Nazaré
Luis Nazaré 27 de abril de 2016 às 21:25

A roda esquerda

Se até agora António Costa conseguiu surpreender pela sua veia negocial, juntando pontas de cordas bem diferentes num difícil exercício de equilíbrio e tensão, os próximos tempos vão-lhe exigir o pleno das suas capacidades, não só tácticas, mas estratégicas.

Dispõe, à partida, de uma certeza: todo e qualquer ensaio de modernização ou reforma do sistema terá de ser conquistado arduamente aos seus parceiros da coligação-que-não-é.

Como era de prever, o Programa de Estabilidade mantém no essencial o rumo da consolidação financeira e as metas de redução do défice orçamental, embora suavizadas e dilatadas no tempo. Do mesmo modo, nada de significativo mudará na frente fiscal, a menos que o plano B venha a impor uma subida da taxa do IVA ou que o imposto sucessório seja reintroduzido (o que, aliás, só provocaria efeitos reputacionais e uma receita simplesmente marginal). No resto, à redução do IVA da restauração, em mau tempo prometida, somar-se-ão alguns ajustamentos nos escalões do IRS, de efeito orçamental neutro, e pouco mais. No campo das políticas económicas, a novidade é a afirmação clara de que o crescimento deverá assentar primordialmente no investimento e nas exportações. Nada de particularmente chocante para os ouvidos mais à esquerda da fórmula governativa.

 

As coisas complicam-se quando são lançados a terreiro temas como a reforma da Segurança Social ou do sistema político. Deles o BE e o PCP preferem nem ouvir falar. Com a habitual tenacidade, opor-se-ão a qualquer alteração significativa dos modelos actuais, tal como oferecerão resistência, activa ou passiva, às iniciativas de modernização do Estado com maior impacto. Não o farão por mal, é só a sua natureza conservadora a falar mais alto. Das suas bancadas nunca se ouvirão propostas que possam mexer com a máquina pública nem se esperam declarações de apoio no combate à burocracia. Paradoxalmente, dada a sua natureza radical e marcadamente estatista, rejeitam todo o tipo de intervenções radicais (não incrementais), de orientação modernizadora, no dispositivo da Administração Pública. Não admira, pois, que torçam o nariz ao Plano de Reformas do Governo; a simples palavra "reformas" inquieta-os.

 

Ora, é no domínio das políticas activas que a acção governativa mais tem de revelar criatividade e empenho, sabendo tirar partido dos recursos disponíveis para prestar melhores serviços aos cidadãos, criar melhores condições de contexto para as empresas portuguesas e gerir com inteligência os fundos comunitários do 2020. António Costa sabe que, a par do financeiro, este é um importante desafio do seu Governo, onde poderá deixar um cunho marcante. Além disso, a sua natureza compele-o à acção - demonstrou-o enquanto ministro e na Câmara de Lisboa.

 

O trilho é difícil e o carro tem tendência para andar aos solavancos, num percurso carregado de armadilhas e incertezas, a maior das quais é o comportamento da roda esquerda.

 

Figura do mês: Dilma Roussef 

 

"Houve golpe? É claro que houve. Em 2010, no plano que urdiu com requinte de profissional, Lula só cometeu um erro: subestimou a incompetência de Dilma Rousseff. E se esqueceu de que a mistura de incompetência com 'ideias próprias', como ocorre no caso de Dilma, costuma ser letal"  - escreve, na Folha de São Paulo, o politólogo Bolívar Lamounier. Face à correlação de forças no Senado, é hoje certo que a Presidenta vai cair com estrondo. Não por fraude, não por corrupção, não por incapacidade, mas pelos pecados dos seus correligionários. Nesse sentido, revelou-se incompetente na gestão da selva de interesses em que o Brasil se transformou. Ingloriamente, ficará conhecida na História por ter sido destituída por um Congresso onde metade dos seus membros, incluindo o presidente da Câmara de Deputados, enfrenta processos de corrupção. Talvez a "incompetência" de Dilma tenha uma outra faceta - a de um país que, em dois anos, vê o seu PIB reduzido em 10%. No fundo, é a economia, sempre ela.

 

Número do mês: 1900 Milhões

 

Se 1900 milhões é o número estimado de veículos, ligeiros e pesados, em circulação no mundo inteiro, o de automóveis vendidos com dados enganosos quanto a emissões poluentes e consumos não deve andar muito longe.

 

Em Setembro, a Volkswagen, pressionada pelas autoridades norte-americanas, reconheceu oficialmente ter vendido onze milhões de viaturas com informação falseada, a que se seguiu uma grave crise directiva e uma queda pronunciada dos títulos. Agora é a vez da Mitsubishi reconhecer que também andou a fazer batota com os números, durante mais de um quarto de século, ainda por cima beneficiando de incentivos fiscais pelos baixos consumos (obtidos de modo fraudulento) dos seus veículos. Na sequência, as acções perderam metade do seu valor e o grupo tem agora a sua própria sobrevivência em risco. Sabe-se que outras marcas desencadearam investigações internas e que algumas terão identificado trapaças. Pois. Mas será que algum automobilista do planeta logrou já alcançar os níveis de consumo indicados nos folhetos comerciais?

 

Economista; Professor do ISEG/ULisboa 

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