Luis Nazaré
Luis Nazaré 24 de agosto de 2016 às 18:50

A ética, a espingarda e o rissol

Ignoro quantos governantes de outros países terão ido a França assistir a jogos das suas selecções a convite de patrocinadores oficiais. Dizem-me que lá fora é prática corrente e que nunca tal suscitou críticas da opinião pública.

Nada mais será como dantes após o Euro 2016. Colectivamente, aprendemos que é possível vencer, que não há fatalidades quando existe qualidade e empenho. No campo dos costumes, vimos nascer um novo padrão - doravante, nem uma rodela de salpicão deverá o ministro da Agricultura aceitar na feira do fumeiro de Vinhais.

 

Ignoro quantos governantes de outros países terão ido a França assistir a jogos das suas selecções a convite de patrocinadores oficiais. Dizem-me que lá fora é prática corrente e que nunca tal suscitou críticas da opinião pública. Talvez os sentimentos populistas estejam na razão inversa da riqueza ou os graus de confiança nos dirigentes sejam mais elevados. Talvez a venalidade dos outros seja simplesmente mais cara.

 

  1. Um velho amigo relatou-me uma história exemplar ocorrida há um par de anos do outro lado do Guadiana. Um grupo espanhol organizou uma caçada algures na Extremadura, durante um fim-de-semana prolongado, para o qual convidou alguns portugueses. No jantar de recepção estavam presentes dois guardas florestais, encarregados da ordem cinegética na região. Perante a surpresa dos atiradores lusitanos, os espanhóis descansaram-nos: 'No pasa nada. Son amigos'. No decurso do jantar desfilaram, como é da praxe, mil histórias de caça. Às tantas, um dos portugueses quis mostrar uma das armas que tinha trazido, uma espingarda rara e dispendiosa que era o seu orgulho. Acto contínuo, um dos guardas levantou-se serenamente do seu lugar, abeirou-se do nosso homem e disse-lhe: 'Lamento, mas essa arma não é permitida. Tenho de lhe apreender a espingarda. Devolvo-lha depois da caçada'. Boquiaberto, ainda tentou argumentar, com pouca convicção, acabando por se render. No domingo à tarde, à hora do regresso, lá estava o guarda a restituir-lhe o brinquedo.

 

  1. Há duas formas de resolver os dilemas éticos em matéria de ofertas a dirigentes públicos. Uma é a do bom-senso e da presunção de honestidade, que podemos encontrar, por exemplo, no Código de Ética da Autoridade Tributária e Aduaneira: 'A aceitação de ofertas ou hospitalidade de reduzido valor (…) não é censurável se não for frequente, estiver dentro dos padrões normais de cortesia, hospitalidade ou protocolo e não for suscetível de comprometer, de alguma forma, ainda que aparente, a integridade do trabalhador ou do serviço'.

 

Acontece que o diabo, diz quem o conhece, adora as aparências e a relatividade dos conceitos. É a história da mulher de César. Por isso, a propósito do ingénuo Rocha Andrade, muitos aproveitaram para vir a terreiro defender uma aproximação radical, conforme à máxima 'A ética é como a virgindade' (ou santidade, para alguns). Esta é a acepção que não conhece graus, contextos ou presunções benévolas de qualquer ordem. É o zero absoluto. 

 

Alerta máximo para os dirigentes públicos: ai de quem aceitar um rissol num evento organizado (mas não oferecido) por uma entidade privada! O aviso é, obviamente, extensível a todos os deputados da Nação.

 

A figura do mês: Mohammed Ridha

 

Pelas piores razões, o embaixador de uma nação que dá pelo nome de Iraque ficará por muito tempo na memória dos portugueses. O comportamento do representante de Bagdade é a demonstração de que pouco ou nada mudou na mentalidade arcaica e tribal das elites árabes.

 

O senhor Mohammed cedeu uma viatura de placa diplomática a dois rebentos sem carta de condução. Numa noite de muitos excessos, os rapazolas cometeram um acto bárbaro, ao melhor jeito do clã Sadam Hussein, mas safaram-se da detenção à custa do papá e das absurdas regras de imunidade da Guerra Fria.

 

No momento em que escrevo esta peça, desconheço os resultados do inquérito em curso e a posição final do governo português. A menos que a iniciativa parta do próprio Iraque, Mohammed Ridha deveria ser declarado persona non grata e enviado para casa; os rapazolas formalmente indiciados de crime. Menos do que isto, é uma vergonha para Portugal e para o infeliz Ruben.

 

Número do mês: 1

 

Por uma medalha de bronze se saldou a representação portuguesa no Rio de Janeiro. Eram muitas as esperanças da comitiva lusa, embalada pela extraordinária vitória no Europeu de futebol, tantas que alguns entendidos anteciparam a conquista de 5 a 10 lugares no pódio (mais realista, o COI só se tinha comprometido com 2,75 medalhas).

 

Não foi uma desilusão, mas sim uma queda na realidade. É certo que em número de diplomas, essa espécie de prémios de consolação para quem fica entre o 4º e o 8º lugares, nem ficámos propriamente mal face a edições precedentes, mas o que fica na história são as rodelas de metal.

 

Alguns algoritmos tinham já previsto que Portugal obteria entre uma e três medalhas. Construídos com base em variáveis económicas e demográficas, revelaram-se uma vez mais certeiros. Não há milagres quando a população é escassa, o investimento reduzido e o número de praticantes irrisório. Os outliers Hungria, Cuba e Jamaica são isso mesmo, anormalidades estatísticas. Muito fizeram os nossos representantes nas modalidades aquáticas, num país onde a maioria dos pescadores não sabe nadar.

 

Economista; Professor do ISEG/ULisboa 

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