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Esta Europa não é para cobardes

Esta Europa tem dois caminhos - ou vai longe ou não vai a parte alguma. Se se partir, todos sofrerão, muito mais do que se as instâncias comunitárias (onde estão?) tivessem tido o arrojo de a salvar. Esta Europa tem futuro, se não for o dos cobardes.

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Fizeram-nos crer que a culpa era nossa, só nossa, a culpa das cigarras gastadoras e tontas, alheias ao esforço das formigas produtivas e conscienciosas do norte. Fizeram-nos crer que o sucesso das formigas se devia ao seu labor e não ao crédito concedido às cigarras. Fizeram-nos crer que os excedentes setentrionais nada tinham que ver com os défices meridionais. Fizeram-nos crer que a ortodoxia dos manuais monetaristas eram a chave para o restabelecimento da Europa.

Fizeram-nos crer que os mercados financeiros assegurariam o sistema circulatório da economia e que a sua sanidade era inquestionável. Fizeram-nos crer que a sua selvajaria era um sinal de dinamismo e que a regulação resolveria os casos mais obtusos. Fizeram-nos crer que a financeirização da economia era uma evolução inofensiva e racional do sistema, algo que só os espíritos mais pobres não alcançam.

Fizeram-nos crer que uma Europa moldada aos interesses da potência dominante era o que melhor asseguraria o progresso da União. Fizeram-nos crer que era normal os presidentes recém-eleitos deslocarem-se de pronto a Berlim para prestarem vassalagem. Fizeram-nos crer que os fantasmas alemães da República de Weimar deviam ser assumidos por todos, com alegria e sentido ariano do dever.

Fizeram-nos crer que devíamos prescindir do bem-estar e dos pilares sociais da construção europeia, a bem de uma competitividade que só alguns podem alcançar. Fizeram-nos crer que só empobrece quem não merece outra sorte. Fizeram-nos crer que as potências emergentes não têm de cumprir critérios de sustentabilidade iguais aos nossos, a bem da eficiência produtiva e do alargamento de mercados. Fizeram-nos crer que um défice norte-americano era ontologicamente diverso de um italiano. Fizeram-nos crer que uma agência de notação venal se podia arvorar no direito de ditar a sorte de um país ou de uma empresa. Fizeram-nos crer que as grandes instituições financeiras podiam correr todos os riscos, que os contribuintes cá estariam para as resgatar em caso de infortúnio. Fizeram-nos crer que os salários e os bónus dos gestores privados eram, por natureza, insondáveis. Fizeram-nos crer que o critério da responsabilidade social das grandes empresas se esgotaria no patrocínio de jogos florais. Fizeram-nos crer que o aumento das desigualdades sociais era uma consequência menor da evolução do sistema.

Fizeram-nos crer que a União Europeia não existe para garantir condições de igualdade no domínio fiscal e que todas as práticas predatórias são, neste domínio, permitidas. Fizeram-nos crer que a Zona Franca da Madeira era a cara do demónio, esquecendo-se dos regimes especiais alimentados pelas formigas mais vorazes. Fizeram-nos crer que os bretões detinham um estatuto especial nos mercados financeiros, permitindo-lhes beneficiar do melhor dos mundos, sem ónus nem encargos para o Continente.

Fizeram-nos crer que o caminho punitivo, luterano, da austeridade era o único que se coadunava com a nossa natureza berbere. Fizeram-nos crer que a redenção só dependia do cumprimento de metas destruidoras do tecido social e económico, na esperança de que os teutões continuariam a poder vender as suas mercadorias a prémio, furtando-se à inflação e à solidariedade europeia de que se sentiram dispensados após a queda do Muro de Berlim. O resultado está à vista - recessão em doze estados da União, desequilíbrio geral das contas públicas, resgates em crescendo, desânimo e insegurança generalizadas.

Esta Europa tem dois caminhos - ou vai longe ou não vai a parte alguma. Se se partir, todos sofrerão, muito mais do que se as instâncias comunitárias (onde estão?) tivessem tido o arrojo de a salvar. Esta Europa tem futuro, se não for o dos cobardes.


Economista; Professor do ISEG
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