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Luis Nazaré 11 de Julho de 2011 às 12:00

Greed is good!

Poucas tiradas cinematográficas terão traduzido tão fielmente a realidade do mundo actual quanto a de Michael Douglas no filme Wall Street - Greed is good! (A ganância é uma coisa boa!).

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1 - Poucas tiradas cinematográficas terão traduzido tão fielmente a realidade do mundo actual quanto a de Michael Douglas no filme Wall Street - Greed is good! (A ganância é uma coisa boa!). Nem os orientais saberiam caracterizar a atitude que move o planeta de um modo tão cristalino. As chinese walls, esse embuste inventado pelos agentes financeiros ocidentais para darem de si próprios uma imagem de rigor, só servem mesmo para fazer rir os chineses.

Pode haver separação de negócios e de interesses, com accionistas comuns? Poderemos ingenuamente pensar que as agências de notação norte-americanas agem de modo independente? Ou que o sistema financeiro está sempre do lado da economia e do progresso? Não, está do lado da ganância, hoje como ontem. E amanhã, quando o Ocidente se recompuser, voltará a cair nas mesmas práticas aventureiras e especulativas. É a sua natureza de escorpião.

Não sou cristão-novo nem cristão-velho, nem sequer crente. Há muito tempo que percebi que as Moodys da vida agem em função dos seus interesses accionistas, dos Buffets e dos Lacharières, das conveniências dos Estados Unidos, contra a Europa e com a estulta conivência dos que deviam regular o sistema.

A sua actividade é legítima? Sim, tanto quanto a de um de um vulgar mercador. As suas previsões mais ou menos pessimistas sobre a Europa do Sul são plausíveis? Sim, tanto quanto as de um qualquer analista. Devem, por isso, ser sacralizadas pelas instâncias europeias, públicas e privadas, como fonte determinística? Não. Se até agora o foram, à beatitude europeia se deve. Não à sua competência, nem à sua isenção. Se se lhes aplicassem os normais critérios de rigor que os "mercados" apregoam, há muito que as três majors teriam sido varridas do sistema, a começar pelo norte-americano. Acontece que todas atribuem a notação máxima (AAA) à vertiginosa dívida dos Estados Unidos e classificam com indisfarçável benevolência todas as empresas USA. Aí está a razão das coisas. E nós, europeus, continuamos dispostos a pagar-lhes?

2 - A quota de um sobre dez milhões e meio de portugueses que a fatia dourada do Estado português formalmente ainda detém sobre a EDP permite-me emitir uma opinião accionista sobre os gastos da empresa (depressa, que dentro de semanas será tarde!).

Pois bem, eis que a eléctrica nacional entendeu ser este o melhor momento para renovar a sua imagem - o logótipo, as cores, o layout das lojas, o estacionário e por aí adiante. Em Portugal e em todos os países onde a EDP está presente. O custo da operação, contas minhas, não deverá ficar abaixo de 5 milhões de euros - o que daria para pagar à TAP uns dez anos de viagens de governantes, em classe executiva. Se pecar, é por defeito.

Ouvi, de fontes da empresa, razões conceptuais para a mudança, desde "colocar as três letras EDP no centro" à "necessidade de ultrapassagem do sorriso", ou coisa que o valha. Por mais que me esforce, não entendo. Devo estar naquela fase em que só percebo as coisas simples, longe da intelectualidade dos publicitários eruditos. Se havia símbolo notório, eficaz e entendível pela generalidade dos portugueses, era o da EDP. É ver os surveys de marca, para quem duvida.

Vamos agora passar a receber as facturas de electricidade com um ovo estrelado como logótipo, a clara em múltiplos tons de vermelho e a sigla da empresa, com uma grafia de escola primária, no lugar da gema. Dizem-me que terá sido um reputado artista estrangeiro o autor da coisa e que a presença internacional da EDP justifica a mudança. Estou certamente errado no meu juízo conservador - o caminho é para a frente, custe o que custar!

Economista; professor do ISEG

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