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Luís Pais Antunes - Advogado lpa@plmj.pt 27 de Agosto de 2009 às 11:46

A guerra do futuro

O "mundo na hora" em que vivemos vem-nos tornando cada vez mais escravos do imediato e do curto prazo. As pessoas e as organizações tornaram-se mais exigentes e hoje são já poucos os que estão dispostos a esperar. Pela satisfação de uma reivindicação. Por...

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O "mundo na hora" em que vivemos vem-nos tornando cada vez mais escravos do imediato e do curto prazo. As pessoas e as organizações tornaram-se mais exigentes e hoje são já poucos os que estão dispostos a esperar. Pela satisfação de uma reivindicação. Por uma resposta. Por uma carta. Por uma decisão. Nalguns casos, a insatisfação gerada pelo atraso é mais do que compreensível e legítima. A consulta que nunca mais chega. A cirurgia emperrada numa qualquer lista de espera. A certidão que podia ser emitida logo ali. A decisão da justiça que se aguarda penosamente. Noutros, somos (quase) todos vítimas da falta de maturação que só o tempo pode trazer.

Grande parte dos erros que cometemos resulta da precipitação. De se procurar a solução mais imediata ou, pelo menos, aquela que parece susceptível de produzir mais ou melhores resultados no curto prazo. Invariavelmente, ao aparecerem os primeiros efeitos negativos, somos levados a pensar que se tivéssemos podido dispor de mais tempo teríamos certamente acautelado esses efeitos. Mas logo nos apressamos a, rapidamente, procurar uma solução de recurso. De remendo em remendo, lá vamos construindo complexos "puzzles" que acabam por consumir, em constantes correcções dos erros do passado, o tempo que não quisemos "gastar" a preparar o futuro.

A actividade política é, talvez, uma das principais vítimas desta "síndrome do imediato". Não apenas na altura da elaboração dos programas eleitorais, normalmente escritos de afogadilho e mais preocupados em encontrar meia dúzia de ideias luminosas que cativem os eleitores.

Também a forma como se exerce a função legislativa traduz esse frenesim de a tudo responder e tudo querer resolver a golpes de escrita. Uma análise cuidada da produção legislativa dos últimos 10 anos (mas podiam ser 20 ou 30…) permitir-nos-ia concluir que uma percentagem muito significativa das leis adoptadas é inútil ou contraproducente. Porque nunca (ou raramente) foi aplicada. Porque nunca chegou a ser regulamentada. Porque rapidamente foi alterada em sentido contrário. Porque consagra soluções idênticas às que leis anteriores haviam revogado. E por aí adiante…

Vem aí (já estamos nela, aliás) uma época perigosa. Não me refiro ao período eleitoral e às peripécias que marcarão a formação do(s) futuro(s) governos. Refiro-me, sim, à grave crise nacional e internacional que ainda atravessamos e às soluções "milagrosas" e catadupas de novas leis, programas e planos que começam a aparecer de todos os lados. Todos, ou quase todos, concentrados na (tentativa de) correcção dos erros do passado e pouco atentos à preparação do futuro. Vamos reforçar a regulação, que não foi eficaz, subsidiar a indústria A, que emprega muita gente, estimular o sector B, que andava esquecido, fazer mais estradas e mais pontes para que as pessoas possam circular cada vez mais e depressa.

Muito provavelmente, em resultado das medidas já adoptadas e do muito dinheiro deitado para cima dos problemas, a febre irá baixar e o doente apresentará sinais de melhoria. Mas é preciso ir muito mais além e, com tempo, preparar o futuro. Não é um desafio exclusivamente - ou mesmo principalmente - português. É um desafio de dimensão mundial, ao qual a Europa pode e deve dar uma resposta, mas sobre o qual também o nosso país tem uma palavra importante a dizer.

Convido-os a visitar o site www.fixingthefuture.eu que a leitura da recente e estimulante entrevista de Diogo Vasconcelos a um dos nossos jornais diários me permitiu descobrir. Nem tudo o que consta do "Fixing the Future: a Manifesto for Recovery Through Innovation" será a solução. E haverá também, por certo, muito a fazer que lá não está escrito. Mas se não apostarmos na inovação e abertura do sector público, na promoção da economia social, na procura de respostas eficazes para o envelhecimento da população e para a degradação ambiental e na criação de verdadeiros estímulos ao empreendorismo, podemos ganhar uma batalha, mas estaremos longe de ganhar a guerra do futuro.


Advogado
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