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Luís Pais Antunes lpa@plmj.pt 14 de Novembro de 2012 às 23:30

Um golpe de asa

Mais do que renegociar ou adiar, precisamos de uma política fiscal agressiva que atraia investidores, de uma justiça que funcione bem e depressa e de um Estado cuja dimensão e funções sejam adequadas à nossa produção de riqueza, sob pena de os enormes sacrifícios de pouco ou nada valerem

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"Há outras opções de governo, mas não há outro caminho", dizia há dias o antigo ministro dos Negócios Estrangeiros de José Sócrates, Luís Amado, ao mesmo tempo que defendia que o Partido Socialista deveria estar aberto para dialogar com o Governo nos cortes da despesa e que alertava para o facto de o Estado social, tal como o concebemos, não poder viver a crédito e ter de se adaptar às condições económicas. Ontem, o primeiro-ministro, Passos Coelho, ao mesmo tempo que afirmava "não (haver) razão para excesso de pessimismo", sublinhava que a Europa se estava a revelar mais lenta na sua reacção do que aquilo que precisamos.

Estas duas declarações resumem o essencial dos desafios com que o nosso país se defronta: é imperioso encontrar um consenso político tão amplo quanto possível para reformar o Estado e reduzir significativamente o "garrote" que o excesso de despesa pública colocou na nossa economia e nas pessoas; é tão ou mais imperioso que a Europa – mais concretamente a "Zona Euro" – ataque de forma decidida os problemas que foi deixando acumular ao longo dos anos e que a crise financeira internacional veio trazer à tona de forma devastadora.

Infelizmente, o que lemos ou ouvimos não nos dá grandes motivos para evitar o excesso de pessimismo. O debate sobre a reforma do Estado e o corte significativo da despesa pública começou mal e rapidamente se transformou numa espécie de "diálogo de surdos". A inércia europeia está de boa saúde e recomenda-se, enquanto vai aguardando pelas ainda longínquas eleições alemãs.

Entretanto, 2012 aproxima-se do seu fim e traz-nos aquilo que muitos já antecipavam: a execução orçamental ficará bem aquém das expectativas e as exportações – principal motor da nossa economia – começam a dar sinais que justificam preocupação acrescida. O orçamento para 2013 – com mais ou menos ajustes decorrentes da discussão na especialidade – não pode ser muito diferente daquilo que já é, ou seja, uma "aterragem forçada na realidade" de um país que, pela incúria de uns e a complacência de outros, se foi endividando e adiando o inevitável, acabando por ficar sob a tutela dos credores.

Num cenário muito pouco animador como aquele que decorre das linhas anteriores, é difícil não revelar uma "dose bem servida" de pessimismo. Precisamos de uma "golpe de asa", de um gesto que devolva a esperança e que nos mostre que podemos conseguir. Mais do que renegociar ou adiar, precisamos de uma política fiscal agressiva que atraia investidores, de uma justiça que funcione bem e depressa e de um Estado cuja dimensão e funções sejam adequadas à nossa produção de riqueza, sob pena de os enormes sacrifícios de pouco ou nada valerem. O Governo tem uma responsabilidade grande na construção desse caminho. Mas o Partido Socialista não pode lavar as mãos como Pilatos e refugiar-se na crítica fácil e na defesa de soluções milagrosas que não adoptou nos muitos anos em que esteve no poder com os tristes resultados que tão bem conhecemos

Como diria Mário de Sá-Carneiro no seu "Quase", "Um pouco mais de sol – e fora brasa, Um pouco mais de azul – e fora além. Para atingir, faltou-me um golpe de asa..."

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