Luís Todo Bom
Luís Todo Bom 30 de novembro de 2014 às 19:00

Gestores, empresários, reguladores, políticos

Senhor Governador do Banco de Portugal afirmou recentemente que o grande constrangimento ao crescimento da economia portuguesa residia na baixa qualidade da gestão empresarial.

 

A novidade desta afirmação reside na alteração da classe que condiciona o desenvolvimento do país, deixando em paz, desta vez, os empresários portugueses que costumam ser os mártires de serviço.

 

Sempre me impressionou este tipo de afirmações, generalistas, englobando todo um grupo, profissional ou social, não suportadas em dados objectivos e quantitativos e ignorando os conceitos de média e de variância.

 

Infelizmente, a realidade não permite estas análises simplistas, já que os fenómenos que trata são complexos e sistémicos envolvendo um conjunto alargado de variáveis.

 

No sistema empresarial, as grandes organizações contribuem decisivamente para os valores económicos agregados e lideram os processos de transformação pelo que a sua análise é essencial.

 

A destruição de valor nestas organizações ocorre quando se verifica a ocorrência simultânea e sistémica das seguintes situações:

 

• Accionistas gananciosos e muito alavancados, insaciáveis na obtenção  de dividendos, normais e antecipados.

 

• Uma gestão oportunística e de curto prazo, maximizando os resultados imediatos e os respectivos prémios de gestão (teoria da agência), com uma distribuição de dividendos generosa, mas comprometendo o processo de gestão estratégica de médio/longo prazo.

 

• Reguladores pouco actuantes permitindo operações de captura de liquidez, com intervenção de veículos internacionais, pondo em causa os "ratios" de estabilidade financeira.

 

• Dirigentes políticos que não acompanham, como deviam, estas organizações estruturantes, suportando essa sua opção em princípios de ideologia política.

 

Em contrapartida, a criação de valor nestas organizações, suportando o crescimento da economia nacional, ocorre com:

 

• Accionistas com robustez financeira e postura conservadora nos seus investimentos, preferindo a estabilidade e a valorização patrimonial à especulação.

 

• Uma gestão competente, fiduciariamente responsável, que adopte "ratios" de estabilidade financeira adequados e compatibilize a gestão operacional com a gestão estratégica.

• Reguladores atentos, eficientes e actuantes na supervisão, auditoria e compliance.

 

• Dirigentes políticos com uma visão estratégica para o país, que acompanhem, dentro dos parâmetros de liberdade empresarial, a evolução destas organizações-âncora.

 

Alguém acredita que os dirigentes políticos americanos não acompanham com atenção as suas organizações mais relevantes da área financeira, da energia e das telecomunicações? E que permitirão a venda de empresas-âncora como a GE ou a Boeing?

 

A degradação total e rápida do Grupo Espírito Santo, com os seus efeitos laterais ao nível do tecido empresarial português, em geral e da Portugal Telecom, em particular, constitui o processo de maior destruição de valor da economia portuguesa do Portugal moderno.

 

Este resultado devastador nunca será completamente recuperado e ninguém é capaz, neste momento, de avaliar as perdas efectivas permanentes.

 

E, porque a economia mundial é cada vez mais complexa e interligada em vários subsistemas, a culpa não recai exclusivamente numa classe profissional.

 

Professor Associado Convidado da ISCTE Business School

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