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Luís Todo Bom 17 de Junho de 2020 às 19:00

O programa do António Costa e Silva

A concretização dum verdadeiro programa estratégico para a economia portuguesa exige um grande consenso nacional, político e institucional, da área pública e privada, difícil de atingir, face à crispação da sociedade portuguesa.

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Declaração de interesses: sou amigo do António Costa e Silva.

Somos ambos, engenheiros, do Técnico, membros da Ordem, nascemos ambos em Angola, somos da mesma geração e temos vários amigos comuns.

O António tem imensas qualidades, que o qualificam para esta missão.

Tem uma formação teórica, de base, sólida e é um estudioso, reflectido, ponderado e com interesses num horizonte alargado de matérias.

A profunda vivência no mundo do petróleo, que engloba todas as geografias, na extracção, transporte, armazenamento, refinação e distribuição, deu-lhe um conhecimento único sobre geopolítica e geoestratégia mundial.

O seu gosto pela reflexão estratégica completa este quadro qualificativo de referência.

Assim sendo, tenho a certeza de que ele, ouvindo muitos quadros institucionais e empresariais, produzirá um relatório de grande qualidade.

As minhas intranquilidades, residem em duas áreas – o processo e a implementação.

O processo, de convite, indigitação e nomeação, foi absolutamente desastroso, criando, desde o início, anticorpos, que serão difíceis de ultrapassar e que contribuirão para os insucessos na implementação.

É um paraministro! Um consultor! Um futuro ministro!

Negoceia com partidos e com membros do Governo! Não negoceia!

Tão desastroso, que parece de propósito.

Sem entrar na teoria da conspiração, custa a perceber, a opção do primeiro-ministro, a não ser que o ruído causado pudesse desviar as atenções de outros temas da actualidade política.

Em particular da discussão do Orçamento suplementar, cujo quadro macroeconómico de referência não tem qualquer aderência à realidade. A classificação de optimista é de uma enorme benevolência.

Com este processo, a má vontade dos partidos políticos, que estão preparados para vasculhar o relatório, na procura de falhas e imprecisões, é clara.

O mesmo se passa com os ministros sectoriais, que se sentiram marginalizados e vão ter de ser envolvidos, neste programa estratégico.

No âmbito da implementação, as minhas preocupações, são mais profundas.

A concretização dum verdadeiro programa estratégico para a economia portuguesa exige um grande consenso nacional, político e institucional, da área pública e privada, difícil de atingir, face à crispação da sociedade portuguesa.

Exige, ainda, uma equipapluridisciplinar de coordenação das várias acções sectoriais, competente, experiente e respeitada, que não é fácil de construir, face ao processo original.

Por outro lado, a degradação da qualidade dos quadros da administração pública, tomada de assalto pelos boys partidários, dificulta a mudança estrutural pretendida.

O “family gate” é só a ponta do icebergue.

Os subsídios e os incentivos ao investimento continuarão a ser para os lóbis actuais.

Por tudo isto, a minha convicção é que a implementação dos projectos mais disruptivos, que fazem a mudança, será marginal.

E é pena, já que tenho uma expectativa muito positiva em relação à qualidade do relatório que será produzido e que, espero, venha a ser do total conhecimento público.

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