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Luís Todo Bom 29 de Maio de 2020 às 21:08

O ventilador português

Mais séria e estruturada é a recente proposta da AEP – Associação Empresarial de Portugal, para a construção e implementação dum novo PEDIP – Programa Específico de Desenvolvimento da Indústria Portuguesa.

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Foi publicada, recentemente, neste jornal, uma notícia, anunciando a produção, por uma entidade nacional, de ventiladores, com uma previsão de entrega de 100 mais 400 unidades aos hospitais portugueses, até ao final de Maio, e o início da exportação de 700 ventiladores, no corrente mês, para o Brasil.

Esta notícia surge num momento em que o Governo esgotou todos os artifícios para tentar explicar o inexplicável: como é que ainda não chegaram aos hospitais portugueses, os 500 ventiladores, encomendados (?), de qualidade garantida (?) e pagos (?), à China, há vários meses.

Mesmo que seja verdade (nesta data já devíamos ter 500 ventiladores nos nossos hospitais), e este anúncio só poderá ser confirmado através dos relatórios dos médicos, directores de serviço de medicina intensiva dos hospitais portugueses (os burocratas e políticos da saúde, mentem-nos todos os dias), estas iniciativas individuais não são a resposta à necessidade urgente dum programa de reindustrialização do nosso país.

Mais séria e estruturada é a recente proposta da AEP – Associação Empresarial de Portugal, para a construção e implementação dum novo PEDIP – Programa Específico de Desenvolvimento da Indústria Portuguesa.

Nos 45 anos de democracia, o país só desenvolveu dois programas estruturados para a indústria portuguesa: O PEDIP e o Projecto Porter.

Participei na concepção e arranque destes dois programas, que foram prosseguidos e implementados, e bem, pelo meu colega Luís Mira Amaral, no segundo governo do Professor Cavaco Silva.

O país precisa, neste momento, de dois programas equivalentes, para o relançamento da indústria portuguesa.

Um novo PEDIP, de base tecnológica, com grande incorporação de inovação e aposta nas cadeias de valor, com parcerias internacionais com players de referência nos vários sectores, e com um programa de reforço dos capitais próprios e de crescimento, em dimensão – financeira, produtiva e tecnológica, das empresas nacionais.

Um novo Projecto Porter, também de base tecnológica, que identifique e robusteça os clusters tecnológicos em que o país já tem uma presença razoável – materiais, biotecnologia, TIC, ciências da saúde, mobilidade, aeronáutica, que reforce as competências dos parques e centros tecnológicos sectoriais, e que, simultaneamente, promova o upgrade tecnológico das indústrias tradicionais, com uma maior integração da robótica, impressão 3D e inteligência artificial.

O reforço destas competências passa por investimentos em inovação e desenvolvimento, a utilização da melhor engenharia portuguesa (com engenheiros inscritos na Ordem!) e a integração, nas empresas, de doutorados nas áreas científicas.

Estes programas devem ser liderados pelas associações empresariais, em parceria com os organismos ligados aos fundos comunitários, sendo objecto de auditorias periódicas, independentes.

Se conseguirmos desenvolver estes programas, aproveitando as oportunidades da pós-pandemia, e a resposta europeia à redução da dependência da China, valeu a pena todo o sacrifício actual.

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