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Luís Todo Bom - Gestor de Empresas 01 de Julho de 2012 às 23:30

O fim da Cimpor

Dir-me-ão que este desfecho era inevitável, após a fragilização financeira do Grupo Teixeira Duarte, fruto das divisões e conflitos internos entre accionistas do BCP e que, como diz o povo, em épocas de crise, "vão-se os anéis para ficarem os dedos".

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Concretizou-se, recentemente, a aquisição da totalidade da Cimpor, por Grupos Cimenteiros Brasileiros, não detendo os investidores nacionais, a partir de agora, uma participação relevante nesta empresa.

A alteração qualitativa que ocorreu com esta operação é clara e simples:

Na situação anterior o país detinha um grupo cimenteiro de dimensão e expansão internacional, com sede em Portugal e fábricas espalhadas por vários continentes, com uma presença significativa no Brasil.

Na nova situação, o Brasil passou a deter grupos cimenteiros, com uma dimensão e presença internacional acrescida, com fábricas espalhadas por vários continentes e uma presença relevante em Portugal.

Os processos de reestruturação e racionalização empresarial que se seguirão, são, para mim, também claros.

O grupo optimizará o arranjo e dimensionamento das unidades de produção industrial e de conhecimento, deslocando para o Brasil as unidades de investigação e desenvolvimento de novos produtos e serviços e redimensionando as unidades de produção industrial em função das dinâmicas de crescimento dos vários mercados.

Perante o declínio do consumo em Portugal, sem qualquer perspectiva de recuperação a curto ou médio prazo, o encerramento de fábricas de cimento no país será uma questão de tempo.

O processo de privatização dos cimentos e das cervejas foi iniciado no 1.º Governo do Prof. Cavaco Silva, em que fui Secretário de Estado da Indústria e Energia, tendo produzido, nessa qualidade, os documentos de enquadramento estratégico destes processos.

No caso dos cimentos, em que a repartição inicial das quotas de mercado eram 75% Cimpor e 25% Secil, propus, e foi aprovado, um modelo de reequilíbrio e aumento da concorrência, entre as duas empresas, passando para 60% e 40%, com a alienação à Secil de 2 fábricas da Cimpor.

O ex-presidente da Cimpor, Eng. Sousa Gomes, acusou-me várias vezes, em tom amistoso, que este movimento retardou o processo de internacionalização da empresa, por redução do "cash-flow" disponível.

Ironicamente, o único grupo cimenteiro português que resiste é a Secil, por força da persistência e teimosia do empresário Pedro Queiroz Pereira!

O fim da Cimpor, tal como existiu até hoje, terá também efeitos negativos no desenvolvimento dum "cluster" de materiais em Portugal e na afirmação internacional da capacidade dos grupos empresariais nacionais.

No caso particular de Angola, os grupos cimenteiros brasileiros detentores da Cimpor, terão especiais facilidades de investimento, por força das linhas de crédito do governo brasileiro, tornando mais dura a concorrência com a Secil Angola.

Dir-me-ão que este desfecho era inevitável, após a fragilização financeira do Grupo Teixeira Duarte, fruto das divisões e conflitos internos entre accionistas do BCP e que, como diz o povo, em épocas de crise, "vão-se os anéis para ficarem os dedos".

Receio, no entanto, que neste caso, além dos anéis, foi também, pelo menos, um dedo.


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