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Manuel Caldeira Cabral 16 de Abril de 2013 às 00:01

O paradoxo de os custos unitários descerem e as exportações abrandarem

É urgente que as Finanças oiçam a economia portuguesa que quer e pode crescer, dando luz verde a iniciativas que permitam restabelecer o financiamento e o apoio às exportações e à atracção de Investimento para Portugal.

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Nos últimos seis meses, a notícia mais preocupante para a economia portuguesa não foi a derrapagem orçamental, o chumbo do Tribunal Constitucional ou sequer o desastrado resgate de Chipre, foi antes a confirmação da forte desaceleração das exportações, que neste momento se confunde já com uma estagnação do crescimento nos mercados externos.


A queda de 2,4 por cento das exportações de bens, em Fevereiro, junta-se aos dados de queda das exportações em Novembro e Dezembro. As exportações portuguesas parecem ter passado de um abrandamento, em curso desde meados de 2011, para um cenário de estagnação. Nos últimos seis o crescimento homólogo das exportações de bens foi 0%. Há um ano as exportações de bens estavam a crescer 12,8%, e um ano antes (no semestre terminado em Fevereiro de 2011) registaram um crescimento homólogo de 18,2%.

A convicção de que os problemas de competitividade da economia portuguesa assentavam principalmente nos custos salariais levou o actual Governo a definir uma política de competitividade baseada na redução dos salários.

Esta política de competitividade seria paralela e coerente com a de austeridade. A redução da procura interna contribuiria para aumentar o desemprego, reduzindo a procura de trabalho. O desequilíbrio no mercado de trabalho resultaria numa redução dos salários e dos custos unitários de trabalho, que contribuiria para reforçar a competitividade permitindo às empresas exportar mais conquistando quota no mercado internacional.

A política de austeridade só por si garantia a retoma da competitividade.

A realidade acompanhou a teoria, a redução da procura interna foi acompanhada pelo aumento do desemprego e pela descida dos salários, mostrando bastante ajustamento no mercado laboral. Os custos unitários de trabalho desceram muito, em particular ao longo de 2012 – ver gráfico.

No entanto, o passo seguinte não se concretizou. A redução dos custos unitários não foi acompanhada pelo aumento da taxa de crescimento das exportações. Pelo contrário, ao mesmo tempo que os custos unitários de trabalho portugueses se reduziam fortemente face aos dos países da UE, a taxa de crescimento das exportações portuguesas foi abrandando.

Parte do abrandamento do crescimento das exportações pode ser atribuído à crise europeia. No entanto, desde 2005 até ao primeiro semestre de 2012 as exportações portuguesas cresceram a um ritmo superior ao registado nos restantes países da UE15. Actualmente as exportações portuguesas estão a crescer menos do que as dos nossos parceiros comunitários. Esperava-se que a baixa de custos permitisse a Portugal manter um diferencial positivo de crescimento. Verifica-se o contrário.

Por outro lado, é importante notar que as exportações portuguesas não estão a abrandar apenas para o mercado europeu. Em Fevereiro as exportações de bens caíram tanto para a UE, como para os mercados extracomunitários. Nos últimos seis meses as exportações de bens para os mercados extra-UE cresceram 6% face ao período homólogo. Seis meses antes estavam a crescer mais de 20% e há um ano apresentavam um crescimento de quase 30%. O forte abrandamento nas exportações extracomunitárias não pode ser explicado pela crise europeia.

O que a realidade está a demonstrar é que a ideia de que a austeridade, ao reduzir os salários, resultaria de imediato em aumento da competitividade e em crescimento das exportações, não está a acontecer.

É preciso que as finanças tenham a humildade de reconhecer que a realidade não está a seguir o quadro teórico em que assenta a sua política de competitividade e retoma do crescimento. As exportações portuguesas cresceram mais em 2006 e 2007 ou 2010 e 2011, em que os custos unitários de trabalho não tiveram uma evolução muito diferente da dos países da UE, do que em 2012 e 2013, apesar do afundar dos custos unitários de trabalho em Portugal.

É importante ouvir as propostas e os alertas que associações empresariais, partidos da oposição e até membros dos dois partidos da coligação e de tantos economistas e gestores que ao longo dos últimos dois anos, têm salientando que o que está a travar as empresas portuguesas é a falta de acesso ao financiamento. É importante que as Finanças permitam uma política de competitividade mais abrangente, que não encare a competitividade de empresas com a sofisticação das portuguesas como dependente apenas da redução da factura salarial.

É urgente que as Finanças oiçam a economia portuguesa que quer e pode crescer, dando luz verde a iniciativas que permitam restabelecer o financiamento e o apoio às exportações e à atracção de Investimento para Portugal. No discurso ontem proferido o primeiro-ministro mostrou abertura a este problema. Será que conseguirá impor esta visão dentro do seu Governo? Ou será que perante os maus resultados o Governo continuará a defender que, se apesar da baixa de salários, as exportações ainda não estão a crescer, isso é apenas um sinal de que é necessário baixá-los ainda mais.

 
* Universidade do Minho

 

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