Manuel Caldeira Cabral
Manuel Caldeira Cabral 28 de abril de 2014 às 20:10

As dificuldades de estar à frente da curva

Hoje a China, a Turquia ou o Bangladesh exportam praticamente sem barreiras os seus têxteis, vestuário e calçado para o que, nos anos 90, era o nosso mercado cativo.

 

O nível de produção por habitante de cada país depende em primeiro lugar da quantidade e qualidade dos factores de produção disponíveis, isto é, da disponibilidade de capital por habitante, do nível de qualificações dos trabalhadores e da abundância relativa de recursos naturais.

 

Mas depende também da forma como cada país consegue criar valor a partir dos factores que tem, isto é, da eficiência com que os factores são utilizados, que resulta da qualidade das instituições públicas e privadas, da capacidade cientifica e tecnológica, da qualidade da gestão e da inserção do país nas cadeias internacionais.

 

Assim, quando se traduz num gráfico a relação entre qualificações e PIB per capita, não é uma surpresa obter uma recta com inclinação positiva, que nos diz que quanto mais qualificada é a população de um país, maior tende a ser a produção e o rendimento dos seus cidadãos.

 

Este exercício é apresentado no gráfico em baixo. Aí pode-se observar que Portugal está à frente da recta. Se produzirmos o mesmo gráfico para o capital por habitante, obtemos um resultado semelhante. Sendo o mesmo também verdade para a maioria dos recursos naturais.

O que é que isso significa? Significa que o país tem um PIB per capita superior ao que seria de esperar para as qualificações, capital e recursos naturais que tem.

 

Isto conduz-nos a uma resposta algo surpreendente e até provocatória: aparentemente Portugal é melhor do que a média da OCDE a tirar valor dos factores que tem. Estes dados sugerem que Portugal tem um PIB per capita inferior à média da OCDE porque tem menos qualificações e menos capital por trabalhador, dos quais resultam naturalmente menor produtividade. Mas dizem que, dada a magnitude da diferença destes factores seria de esperar uma diferença de rendimento ainda maior.

 

Esta ideia deve ser encarada de forma positiva, mas também com alguma preocupação.

 

De forma positiva, pois sugere que Portugal é mais bem gerido do que seria de esperar a partir das qualificações que tem. Isto não significa que as empresas ou as instituições públicas portuguesas são mais bem geridas do que as suecas ou alemãs. Significa apenas que, apesar de apenas pouco mais de 10% dos gestores em Portugal serem licenciados, enquanto na Suécia esse valor é próximo dos 50%, a diferença de qualidade de gestão não reflecte totalmente essa diferença de qualificações. O mesmo aplicando-se eventualmente a muitas instituições públicas.

 

Há vários casos que ilustram esta ideia. Veja-se a volta que o país deu com a melhoria tecnológica e de qualidade no sector do calçado, ou a surpresa de Portugal ser exportador em engenharia de construção, nas TIC, no automóvel, ou na aeronáutica. Ou olhe-se para o forte avanço de universidades públicas portuguesas nos rankings mundiais, ou para a qualidade do nosso sistema de saúde, mesmo se o país gasta menos do que a média da OCDE nas universidades ou na saúde.

 

Melhores instituições e mercados podem explicar porque é que Portugal tem um PIB per capita superior ao México, Argentina ou Brasil, apesar destes países terem uma proporção de trabalhadores qualificados semelhante à portuguesa e disporem de mais recursos naturais.

 

No entanto, o facto de Portugal estar à frente da recta também deve ser motivo de preocupação e pode ajudar a explicar parte dos problemas da última década.

 

Parte da explicação para termos um PIB per capita maior do que o Chile ou próximo do da Nova Zelândia, dois países com melhores qualificações e com maior abundância de recursos naturais pode advir da nossa posição geográfica. O facto de Portugal estar dentro da UE, enquanto a maioria dos países com qualificações semelhantes estarem fora, foi um factor que favoreceu o nosso país. Portugal, apesar de ter salários mais elevados do que muitos países com níveis de qualificação semelhante ao seu, continuava a ser um país de baixos salários no mercado onde estava. Portugal era o país de salários baixos de um clube de ricos.

 

No entanto, isso mudou. E mudou radicalmente. O clube deixou entrar 13 novos membros, com melhores qualificações e salários inferiores aos portugueses, e abriu as portas à globalização. Hoje, a China, a Turquia ou o Bangladesh exportam praticamente sem barreiras os seus têxteis, vestuário e calçado para o que, nos anos 90, era o nosso mercado cativo. Concorrem com salários muito mais baixos e não tendo de cumprir as muitas das dispendiosas regras europeias.  

 

A geografia alterou-se. O nosso privilégio de acesso desapareceu. Os produtos que exportamos têm entrada livre, venham de onde vierem. Sem essa vantagem haverá maior pressão para convergir com a recta.

 

Essa convergência pode significar andar para trás. Um recuo do rendimento para um nível mais próximo do que as nossas qualificações, capital por trabalhador e recursos podem sustentar. Esta é a tese do empobrecimento. Que parece ser a proposta da Troika e, até há pouco tempo do nosso Governo. É o caminho mais fácil, mas também o menos interessante.

 

Outra alternativa, mais difícil, mas mais interessante, é tentar aproximar-nos da recta andando para cima. Isto, em grande medida, significa retomar políticas que o actual Governo interrompeu. Isto é, retomar os esforços de melhoria das qualificações, apostando não só no acesso dos jovens ao ensino superior, mas também na requalificação dos trabalhadores mais velhos. E voltar a apostar na ciência, inovação e tecnologia, e em reforçar a confiança nas nossas instituições. Esta é a alternativa que, a meu ver, devemos seguir. Uma alternativa que não é fácil, pois significa mobilizar a sociedade e as empresas para um esforço grande, sem resultados ou melhorias imediatas. É um caminho difícil. Mas é também uma alternativa que, sem criar ilusões, mantém a ideia de que é possível construir um futuro melhor para os portugueses.

 

Professor no departamento de Economia da Universidade do Minho

 

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