Outros sites Cofina
Notícias em Destaque
Opinião
Manuel Caldeira Cabral 08 de Janeiro de 2014 às 00:01

Brasil - crescimento acelerado das expectativas ultrapassa muito o do PIB

O Brasil tem um enorme potencial de crescimento por explorar. O maior potencial está nos seus habitantes. As diferenças de produtividade e de qualificações entre São Paulo e o Nordeste são gritantes.

  • Assine já 1€/1 mês
  • 14
  • ...

 

Os protestos que deflagraram em Junho por todo o Brasil foram uma surpresa para todos. O país, ao contrário de Portugal, teve uma década de forte crescimento. E o crescimento foi acompanhado por um aumento de salários e do consumo da classe média, e por uma diminuição da desigualdade e da pobreza.

Quem é que pode estar insatisfeito com estes resultados?

Por um lado ninguém. Muito do que o Brasil conseguiu na última década e meia superou as expectativas mais optimistas. Depois de muitos anos de estagnação e alta inflação, o país conseguiu mais de uma década de crescimento sem inflação. Conseguiu também progressos notáveis na diminuição da pobreza e da desigualdade. Algo que muitos brasileiros viam como impossível corrigir, num dos países mais desiguais do mundo.

No entanto, o descontentamento existe e foi bem visível nos muitos brasileiros que se manifestaram por todo o país.

Uma visão mais simples podia ligar estes protestos ao aumento da inflação – começaram com um protesto contra o aumento do preço dos transportes – ou a um reflexo do arrefecimento do crescimento.

De facto, no Brasil, o ano do Mundial de futebol começa com alguma apreensão. Depois de uma década com um crescimento próximo dos 4%, e de um 2010 em que o PIB cresceu 7,5%, o crescimento de 2012 ficou-se pelos 0,9%. Em 2013 e 2014 o PIB deverá crescer próximo dos 2%, um valor invejável quando visto de Portugal, mas que significa que este será o quarto ano consecutivo em que a economia brasileira vai crescer abaixo da média mundial e da média da América Latina.

Na última década, o Brasil beneficiou muito do aumento dos preços das matérias-primas que exporta. Mais de 2/3 do aumento das exportações foi explicado pelo aumento de preço destas matérias-primas a que se juntaram as exportações de petróleo, depois da descoberta e exploração de importantes depósitos. O aumento do preço das matérias-primas e das exportações ajudou a acelerar o crescimento e a permitir o aumento do consumo sem agravar demasiado o desequilíbrio externo.

Nos últimos três anos, no entanto, apesar dos preços se manterem elevados já não registaram uma subida que só por si pudesse puxar o crescimento da economia. Isto, aliado a uma excessiva valorização do real fez com que as exportações e a economia estagnassem.

Dois problemas parecem preocupar os brasileiros. O primeiro é o que está a ser feito com os rendimentos adicionais que o petróleo, o aumento das matérias-primas e o crescimento económico trouxeram. O segundo é se o crescimento da década de 2000 vai ser retomado, ou se o país vai voltar a registar uma década de crescimento medíocre.

Na resposta à primeira questão, o que está a chocar os brasileiros é principalmente o choque da corrupção, e a percepção de que há uma má utilização generalizada de gastos públicos. Os estádios do Mundial foram um dos alvos preferenciais. E com razão. Não se trata apenas de uma prioridade errada, num país onde faltam estradas, escolas e hospitais, mas também de custos inaceitáveis – um único estádio do Mundial poderá custar quase o mesmo que todos os do Euro 2004.

Ao contrário da anterior década, em que o crescimento foi puxado pelo aumento das matérias-primas e aproveitado para uma política de redistribuição com resultados visíveis, o crescimento do Brasil nas próximas décadas será o resultado das decisões que o país agora tomar.

A frustração e a insatisfação do povo brasileiro podem ser um forte estímulo para o país fazer reformas importantes que ataquem a corrupção, melhorem a qualidade de ensino e a exigência na prestação de serviços públicos e liberalizem partes importantes da economia. Mas podem também ser canalizadas para privilégios ou gastos sociais que no futuro se revelem insustentáveis.

O Brasil, sendo ainda um país com uma população jovem e com um estado social em desenvolvimento, tem já um peso de algumas áreas de despesa social muito elevadas, que a diminuição da natalidade pode tornar insustentáveis. Tem também fortes riscos de concentração das exportações em matérias-primas que no passado tiveram forte volatilidade nos preços, que mesmo com a forte procura asiática pode voltar.

Por outro lado, o Brasil tem um enorme potencial de crescimento por explorar. O maior potencial está nos seus habitantes. As diferenças de produtividade e de qualificações entre São Paulo e o Nordeste são gritantes. As diferenças de oportunidades dentro de São Paulo são ainda mais chocantes, mostrando o potencial humano que está por aproveitar. Neste sentido políticas sociais como o "Bolsa Família" podem, ao mesmo tempo que reduzem a pobreza, ter uma enorme eficácia na promoção do crescimento a longo prazo, colocando dentro do sistema escolar muitos dos que serão os trabalhadores brasileiros do futuro.

Mas há muitas outras áreas em que este país tem forte potencial para aproveitar. O Brasil tem uma agricultura tecnologicamente avançada. Mas esta ainda é aplicada apenas a uma fracção do país, em parte por limitações das infra-estruturas. Tem também sectores da indústria muito competitivos, e outros que vivem de um proteccionismo que impede avanços na produtividade.

A maior abertura ao comércio poderá ser uma enorme oportunidade para o crescimento da agricultura brasileira e para uma maior exigência nos seus sectores industriais, em especial se o Brasil conseguir melhorar as suas instituições e regular melhor o funcionamento dos mercados, ao mesmo tempo que melhora as infra-estruturas de que realmente necessita.

A maior abertura da sociedade e a emergência de uma classe média mais alargada e mais exigente são uma poderosa força de mudança. Portugal deve estar pronto para estas oportunidades. Deve também, no seio da União Europeia, defender uma maior abertura do mercado brasileiro à entrada de produtos europeus, em simultâneo com a contrapartida de maior abertura da UE à entrada de produtos brasileiro. Este é um dossiê que muito interessa a Portugal e que pouco tem avançado na UE.

* Professor no departamento de Economia da Universidade do Minho


Ver comentários
Mais artigos de Opinião
Ver mais
Outras Notícias