Manuel Caldeira Cabral
Manuel Caldeira Cabral 26 de maio de 2015 às 19:55

Em Sintra, o BCE reuniu radicais de esquerda e conservadores, ambos com razão

A defesa de que o BCE tal como a Reserva Federal dos EUA devem ter um mandato dual, preocupando-se não só com a inflação mas também com o crescimento e com o emprego é algo que várias pessoas, em que me incluo há muito defendem.

Os papeis em Sintra estiveram invertidos. Dentro da conferência alguns dos mais respeitados economistas e representantes de bancos centrais defenderam ideias que até há pouco tempo eram classificadas como pouco heterodoxas, numa União Europeia demasiado acrítica na avaliação da política generalizada de austeridade que estava a seguir. À porta da Penha Longa, empunhando cartazes, os lesados do BES defendiam uma posição muito mais conservadora: a ideia de que a palavra e a confiança nas instituições financeiras deve valer alguma coisa. Em ambos os casos parece haver bom senso.

 

Os economistas deixaram avisos sobre riscos de uma prolongada estagnação do crescimento e de baixa inflação, de hysteresis no desemprego de longa duração e mostraram-se preocupados com a divergência na Zona Euro, que a pode tornar insustentável. Fizeram apelos a que o BCE mantenha uma política expansionista, acrescentando que é também necessário que os Governos europeus promovam o relançamento da economia através do investimento público.

 

Olivier Blanchard, economista chefe do FMI apresentou um paper em co-autoria com Eugenio Cerutti e Lawrence Summers, que estuda o efeito de recessões ocorridas durante 50 anos em 23 economias avançadas, incluindo Portugal, que conclui que dois terços das recessões são seguidos por um produto mais baixo do que o registado antes da crise, e também em 2/3 dos casos seguem-se taxas de crescimento mais baixas do que a tendência anterior. A seguir a uma recessão, o desempenho da economia é, em muitos casos, pior do que havia no passado. Portugal é um dos casos em que estes efeitos se registam de forma clara, de acordo com os autores.

 

Estes autores admitiram que a própria recessão e o prolongar da mesma podem provocar a redução do crescimento potencial por um período longo no futuro, no caso de se verificar histerese, isto é de os efeitos de curto prazo se manterem. Isto pode resultar do efeito que a crise tem na confiança dos investidores, ou na situação das empresas, ou do facto dos trabalhadores que permanecem mais tempo no desemprego durante a recessão perderem capacidade (por afastamento da realidade do trabalho) ou perderem motivação. O mesmo pode acontecer com a entrada intermitente, que limita que novos trabalhadores tenham ganhos de experiência na entrada no mercado de trabalho.

 

Perante isto defenderam que no futuro a política monetária deve responder muito mais fortemente aos movimentos do produto. Se as recessões têm mais custos do que se pensava, vale ainda mais a pena fazer um maior esforço para evitá-las e, caso aconteçam, para as combater e tentar encurtar. Estas ideia defendidas por economistas com o prestígio de Blanchard ou Summers não poderão deixar de ter impacto. A questão é quanto tempo é que vai demorar a que sejam entendidas pelas actuais lideranças conservadoras da Zona Euro. 

 

A defesa de que o BCE tal como a Reserva Federal dos EUA devem ter um mandato dual, preocupando-se não só com a inflação mas também com o crescimento e com o emprego é algo que várias pessoas, em que me incluo há muito defendem. Mas não deixa de ser importante que o Economista chefe do FMI o subscreva.

 

Lawrence Summers, ex-secretário do Tesouro norte-americano, também defendeu que os bancos centrais têm de fazer mais para evitar os efeitos negativos da recessão. Mas não foi apenas aos bancos centrais que estes economistas pediram mais actuação. Perante o risco de um período de "estagnação secular", em que as taxas de crescimento e as taxas de juro se mantêm por muito tempo em níveis demasiado baixos, para além do BCE, também os Governos devem contribuír com medidas de estímulo ao crescimento na Europa. Summers apelou à utilização pelos Governos do espaço orçamental de que disponham para, por exemplo através de mais investimento público, aumentar a procura agregada na economia e, seguindo o que já vem defendendo desde 2013, criticou os países que, tendo hipóteses de o fazer, não o fazem, alertando que a estagnação secular é contagiosa e que é dever de quem a tem tentar curá-la e é direito dos outros países pedir que esta seja corrigida. Sem duvida uma narrativa do que é a doença europeia e da necessária cura, muito diferente da de outro economista, o primeiro ministro português.

 

Outros economistas como Jordi Gali, da Pompeu Fabra salientaram que não há na Zona Euro nenhuma ancora que garanta que o desemprego deverá voltar aos anteriores níveis de longo prazo, salientando que na ausência de uma política contra-ciclica forte, a economia de muitos países e eventualmente de toda a zona euro pode ficar encalhada num ineficiente baixo nível de actividade económica por um período demasiado longo. O governador do banco central da Irlanda foi ainda mais longe criticando a limitada visão que têm dominado nas reformas estruturais e questionando porque se têm centrado apenas na ideia de flexibilidade do mercado de trabalho que questionou se não tem significado apenas um objectivo de baixa de salários. Há de facto muitos outros problemas estruturais, com os quais a União Europeia se preocupava muito até há bem pouco tempo, que têm sido totalmente deixados para trás, problemas como a perda de liderança científica e tecnológica, o envelhecimento, a integração dos jovens no mercado de trabalho, a convergência entre países, a pobreza ou mesmo o ambiente, questões em que a Zona Euro tem dado pouca atenção e que são determinantes para o seu futuro.

 

Tudo isto são sinais de que está a haver uma mudança muito forte de pensamento no centro das instituições europeias. Mudança que significa o reconhecimento de que o caminho seguido pela UE foi muito penalizador, quer no sofrimento causado, quer na perda de PIB de longo prazo que gerou. Estas mudanças têm de se traduzir em mudanças de política.

 

Professor no departamento de Economia da Universidade do Minho

pub

Marketing Automation certified by E-GOI