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Manuel Caldeira Cabral 12 de Maio de 2015 às 00:01

Reino Unido: riscos, surpresas e lição dos resultados eleitorais

Os resultados eleitorais no Reino Unido tornaram mais sério o risco de saída do Reino Unido da União Europeia e mostraram que a questão da saída da Escócia está longe de ter sido ultrapassada pelo referendo.

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O partido antieuropeu (UKIP) foi o que mais cresceu em número de votos. A vitória dos conservadores torna inevitável a realização de um referendo sobre a saída do Reino Unido da UE cujos resultados são difíceis de prever.

 

Há muito que a maioria da população britânica é crítica sobre as instituições europeias. A crise e a reacção europeia à mesma significam que a UE está num momento particularmente impopular.

 

A saída do Reino Unido da UE será negativa para o Reino Unido, mas também para a UE como um todo. Será especialmente negativa para Portugal, porque sem Reino Unido, a UE será sempre uma união mais continental, e Portugal mais periférico. Faz falta ter dentro da UE a visão pragmática, anti-regulamentação e burocracia, do Reino Unido, em especial a países que têm empresas mais pequenas, com menos quadros qualificados e capacidade financeira e tecnológica, como é o caso de Portugal.

 

Não é certo que as instituições europeias consigam reagir a tempo de poder mudar o suficiente para convencer os britânicos de que permanecer na UE é a melhor decisão. Portugal deve surgir ao lado do Reino Unido. Muito do que os britânicos querem é também positivo para o nosso país.

 

As surpresas

 

A maior surpresa das eleições no Reino Unido foi os conservadores terem conseguido eleger a maioria dos deputados - algo que as sondagens não previram.

 

Os conservadores aumentaram muito o número de deputados, mas tiveram praticamente a mesma percentagem de votos das últimas eleições.

 

A política seguida pelo governo não lhes deu mais votos. Mesmo com indicadores económicos muito mais favoráveis do que os de Portugal (ver quadro 1), os partidos que estavam no governo perderam 15% dos votos. Esta perda foi toda concentrada num dos parceiros - o que está mais ao centro (o Partido Liberal Democrata), cuja base de apoio não se reviu nos cortes que o governo fez. Foi uma perda muito forte que quase fez desaparecer este partido do Parlamento, o que sugere que os eleitores mais moderados reagiram negativamente às políticas do actual governo britânico.

 

O partido que mais cresceu em votos (UKIP) perdeu deputados - ver tabela 2. Os trabalhistas crescem em votos e perdem 25 deputados, por causa da concentração de votos nos nacionalistas escoceses. O sistema eleitoral maioritário permite estas discrepâncias. Mas desta vez, um conjunto particular de circunstâncias, fez com que a diferença entre a evolução dos votos e do número de deputados fosse muito acentuada. Desde a segunda Guerra Mundial, os conservadores nunca tinham conseguido uma maioria absoluta com menos de 40% dos votos. Desta vez conseguiram com 36,9% dos votos.

 

Tratou-se na prática de duas eleições. Na Escócia, o SNP (partido nacionalista escocês) conseguiu 50% dos votos e elegeu 56 dos 59 deputados (95%). O Partido Trabalhista perdeu 40 deputados. Com 25% dos votos elegeu apenas 1 deputado.

 

No conjunto, os partidos regionais (da Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte) elegeram 12% dos deputados, com 8% dos votos.

 

Na Inglaterra, os Trabalhistas tiveram mais 4% de votos, mas elegeram apenas mais 15 deputados, enquanto os conservadores conseguiram conquistar mais 21 lugares, com um aumento de 1%, beneficiando da queda do partido liberal e da dispersão de votos, pelos antieuropeístas (UKIP), verdes e liberais. Estes 3 partidos, tiveram 25% dos votos e apenas 2% dos deputados.  

 

Que lições tirar destes resultados? O que é que estes podem dizer sobre o que vai acontecer noutros países, como Espanha e Portugal?

 

Poucas lições se podem tirar. As circunstâncias económicas são muito diferentes. O Reino Unido tem um dos mais baixos desempregos da UE. Espanha e Portugal são dois dos países com maior nível de desemprego, e os resultados dependeram muito do sistema eleitoral inglês, muito diferente do de Portugal e Espanha.

 

No entanto, é importante salientar que o resultado desta eleição se deveu ao facto de os trabalhistas não terem conseguido conquistar mais do que uma pequena parte dos 15% que o Partido liberal perdeu. Foi isto que permitiu aos conservadores ganhar e ter maioria. Nesse sentido, o que aconteceu em Inglaterra pode ser um aviso para as eleições que se seguem em Espanha e mesmo em Portugal. A dispersão de votos por várias alternativas e movimentos teve como resultado que, mesmo num quadro de diminuição dos votos dos partidos que apoiavam o governo, se garantiu a manutenção da mesma política e dos mesmos conservadores no poder.

 

Professor no departamento de Economia da Universidade do Minho

 

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