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Manuel Castelo Branco 05 de Julho de 2013 às 00:01

Afinal não era bluff!

Há quem defenda (eu, desde Março de 2011) que talvez tivesse sido mais prudente ter deixado o Governo de Sócrates assinar o PEC IV (...), provocando a sua queda apenas em Novembro de 2011 com o chumbo do Orçamento.

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Costuma dizer-se que os políticos não podem dizer o que querem, nem fazer o que lhes apetece mas, apenas, o politicamente correcto.


Paulo Portas fez o que lhe apeteceu num certo, enigmático e determinado momento.

Como consequência disso Portugal tremeu, as réplicas fizeram-se sentir em toda a Europa e o "Financial Times", que há uns tempos não escrevia sobre nós, dedicou-nos na sua edição de ontem, com honras de chamada na primeira página, cinco artigos e meio editorial onde pedia "mais coragem aos políticos portugueses".

Desde o momento em que decidiu apoiar Cavaco Silva e o PSD a derrubar Sócrates e a iniciar um novo período de governação em Portugal, muita coisa saiu ao contrário do que Paulo Portas teria planeado. Alguma por culpa própria, outra porque a conjuntura e as pessoas foram madrastas.

A primeira que correu mal foi logo o resultado eleitoral de 2011: Portas tinha uma enorme e natural expectativa de obter um resultado eleitoral histórico que daria ao CDS capacidade de negociação da coligação com o PSD, só comparável à da primeira AD de Sá Carneiro, Balsemão, Freitas do Amaral e Amaro da Costa.

Não só ele e o seu partido realizaram uma excelente campanha eleitoral, como Passos Coelho era um candidato pouco convincente, sem passado governativo, recém-eleito num confronto interno com Aguiar-Branco e Paulo Rangel que tinha deixado marcas no partido.

Mas a recuperação de Sócrates nas sondagens finais transferiu para o PSD o voto útil e Portas ficou com um honroso, mas não estrondoso, resultado eleitoral.

Ao negociar a coligação, Paulo Portas escolheu para si o lugar que melhor lhe servia, mas não aquele em que melhor teria servido o País e o próprio CDS. Sendo Portugal um simpático mas irrelevante País da cena internacional, a actividade do seu ministro dos Negócios Estrangeiros limita-se à Lusofonia, a alguns países sul-americanos e aos Açores, quando os nossos aliados se lembram de os requisitar para lá instalarem tropas, ou realizarem cimeiras, em tempos de guerra.

Ao assumir a pasta dos Negócios Estrangeiros e ao não se concentrar exclusivamente nas tarefas não executivas de ministro de Estado, Paulo Portas afastou-se da condução diária da política nacional, que ficou entregue a Passos Coelho, Vítor Gaspar e a Miguel Relvas e tapou a entrada para um posto chave do Governo (a economia, por exemplo) de outro peso pesado do seu partido. Ou seja, o PSD tomou conta da orientação política do Governo.

Julgo que Paulo Portas, que é um homem inteligente e, provavelmente, o político no activo com mais experiência, se apercebeu que ele, o PSD e Cavaco Silva talvez se tivessem precipitado no timing para derrubar o Governo de Sócrates, logo que realizou o modo de implementação do memorando, o que era trabalhar com a troika e que o primeiro-ministro e o ministro das Finanças por vezes faziam gala em aprovar e aplicar o que nem à troika tinha ocorrido!

Há quem defenda (eu desde Março de 2011) que talvez tivesse sido mais prudente ter deixado o Governo de Sócrates assinar o PEC IV (que já vinha aprovado e certificado pelo BCE, pela Comissão e até pela chanceler Merkel), provocando a sua queda apenas em Novembro de 2011, com o chumbo do Orçamento. O problema é que havia então (como existe agora) muita gente com pressa de ser ministro.

Paulo Portas cedo realizou que a receita da troika e a submissão incondicional ao diktat alemão ia estrangular a economia portuguesa, pois assim como não se fazem omeletes sem ovos, não se inverte o ciclo recessivo sem estimular a procura.

Exigiu então que fosse dada mais atenção à Economia. Como dois anos antes não tinha conseguido forçar o PSD a entregar a pasta da Economia a António Pires de Lima, passou a superintender a Economia, o Álvaro e a AICEP.

E, ao mesmo tempo, lançou uma cruzada para substituir o ministro das Finanças.

Vítor Gaspar foi-se embora deixando uma carta de perfeito diagnóstico da situação que só surpreende pela conclusão, pois onde está – por isso demito-me – deveria estar "… e, por isso, aqui ficarei enquanto V.Ex.as o entenderem necessário!".

A saída de Vítor Gaspar foi, provavelmente, a maior vitória política de Paulo Portas nos últimos dois anos. Pelo menos foi assim que a nossa imprensa o interpretou se analisarmos as "setinhas" dos barómetros publicados na imprensa Portuguesa no "day after": Paulo Portas sempre com a setinha para cima e Passos Coelho com a setinha para baixo.

Passos Coelho escolhe para Ministra das Finanças Maria Luís, pessoa muito competente, trabalhadora, respeitada pelos nossos credores e conhecedora dos dossiers. Uma tranquila evolução. Paulo Portas opôs-se, mas o primeiro-ministro considerou que essa escolha era da sua competência, manteve-a e ignorou Portas, mais uma vez.

Paulo Portas, sem dar conhecimento prévio ao Conselho Nacional, considerou que " enough is enough " e demitiu-se, apanhando de surpresa o primeiro-ministro que incluía esse cenário na secção dos bluffs.

Dessa demissão resultou uma enorme crise, um enorme susto para todos os Portugueses, talvez a remodelação que o Primeiro-ministro atrasa há mais de um ano e alguma paz para os meses mais próximos.

Paulo Portas sairá desta crise como herói se conseguir para si e para o seu partido mais peso no Governo, ou como vilão se a coligação morrer já e José António Seguro for Primeiro-ministro dento de dois meses e meio.

Passos Coelho sairá sempre mal, porque não soube avaliar a situação e evitar esta crise.

O dano causado ao País e aos portugueses é enorme e irreversível, como é costume.

Advogado

mcb@mcb.com.pt

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