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Manuel Castelo Branco 27 de Setembro de 2013 às 00:01

"Hey Teacher, leave them kids alone"

Nós escancarámos a porta à intervenção e ao resgate e até exagerámos, executando além do que nos mandavam fazer. O resultado também está à vista: bons alunos, mas reprovados pelos mercados.

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Li ontem que uma conhecida multinacional do ramo alimentar tinha prescindido dos serviços do seu CEO Português e entregue as respectivas funções a um Espanhol, que as passaria a exercer desde Madrid.


Situações destas repetem-se desde a nossa integração plena na UE.

Sempre que penso neste tema, o da progressiva, subtil e, até agora, irreversível substituição dos quadros Portugueses por quadros estrangeiros, maioritariamente Espanhóis, sinto uma patriótica angústia!

Vendo bem, nós Portugueses nem somos tão maus assim e vamos dando boas provas na gestão da política, dos negócios e da finança internacional: não há outro pequeno país que se possa gabar de contar entre os seus nacionais com o Presidente da Comissão Europeia, o Vice-Presidente do Banco Central Europeu, o Presidente do ACNUR e o CEO do mais antigo Banco Inglês, que até assina algumas notas de Libra!

Os Portugueses que por cá trabalham e os que tiveram de emigrar são conhecidos pelas suas capacidades linguísticas, pela sua competência e formação e pela sua adaptabilidade e capacidade de integração, que alguns associam a falta de iniciativa e de personalidade.

Como me explicava um amigo estrangeiro e afluente que, recentemente, decidiu mudar-se para o nosso jardinzinho com a família e com o negócio, Portugal tem tudo o que é necessário para sediar negócios à escala mundial: excelentes infra-estruturas informáticas e de comunicação, estradas e auto-estradas de fazer inveja a gregos e troianos, mão-de-obra barata e altamente qualificada (se bem que nos estejam a roubar a melhor parte dela) e uma extraordinária qualidade de vida que se mede pelo clima ameno, a comida barata e boa e um serviço de saúde de altíssima qualidade.

Nos anos 80 e 90, estava na moda criar empresas de construção em Portugal, especular no imobiliário, constituir fundos de investimento mobiliário, abrir bancos e sucursais das mais diversas (e algumas estranhas) empresas multinacionais.

Lisboa, rivalizava com Barcelona, entre os destinos preferidos dos gestores expatriados e dos diplomatas de nomeação política.

20 anos depois, o investimento estrangeiro parou e grande parte do que existia, ou encerrou, ou reduziu progressivamente a sua dimensão, deslocalizando os seus centros de decisão (na maior parte dos casos para Espanha) criando, ou assegurando, emprego aí e enviando para o desemprego trabalhadores não qualificados e quadros Portugueses.

Os melhores, os mais ousados ou os mais endinheirados tentaram a sua sorte no estrangeiro, a maior parte deles com tanto sucesso que, provavelmente, só voltarão de férias ou já reformados. Um sangria fatal!

Os outros que por cá ficam, sobrevivem com o fundo de desemprego ou com miseráveis reformas que anteciparam, na esperança de que um milagre recupere o País, ainda antes de se tornarem definitivamente "velhos" para o mercado do emprego.

Ao aderirmos à União Europeia, ao Euro e a Schengen aceitámos as regras do jogo, comprámos as ilusões que nos impingiram, esbanjámos a aparente riqueza, e delirámos imaginando a Alemanha e os outros países "ricos" a cuidarem de nós, pois éramos pequenos e baratos.

Portugal, em 2013 precisa de investimento estrangeiro como pão para a boca. Mas o investimento estrangeiro não volta enquanto os investidores não se assegurarem que Portugal é um país sustentável. E Portugal não pode ser um País sustentável a pagar juros de 7% na dívida a mais de 10 anos. Como dizia João Duque numa entrevista recente à Exame, em breve os encargos com a dívida serão superiores aos encargos com a saúde.

E os juros só baixarão quando a Comissão Europeia, o Banco Central Europeu, o FMI, a Chanceler Merkel e o seu ministro Schauble se convencerem que estamos no limiar do martírio e derem sinais claros aos mercados.

A nossa vizinha Espanha teve a coragem de recusar a Troika e a sua política. O resultado está à vista: regresso ao crescimento já em 2014, juros de dívida pública a longo prazo de pouco mais de 4%, optimismo crescente dos empresários.

Nós escancarámos a porta à intervenção e ao resgate e até exagerámos, executando além do que nos mandavam fazer. O resultado também está à vista: bons alunos, mas reprovados pelos mercados e com uma economia paralela que já ultrapassa 25% do PIB.

* Advogado

mcb@mcb.com.pt

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