Manuel  Falcão
Manuel Falcão 04 de outubro de 2019 às 11:05

O dia seguinte

António Costa chegou a pensar que no dia seguinte às eleições poderia governar sozinho ou fazer um acordo de conveniência com André Silva, do PAN.
Back to basics
"A História é a versão dos acontecimentos passados sobre a qual se obteve um consenso"
Napoleão Bonaparte

O dia seguinte
António Costa chegou a pensar que no dia seguinte às eleições poderia governar sozinho ou fazer um acordo de conveniência com André Silva, do PAN. Seria a réplica contemporânea do acordo do queijo limiano que permitiu a Guterres prolongar a sua existência governamental. Em vez de lacticínios, ração para animais: eis aquilo que resumia a política portuguesa há duas semanas. No entanto, as últimas sondagens mostram que Costa vai ter de gerir os resultados de maneira diferente. Há um episódio esta semana que mostra bem a alteração da correlação de forças eleitorais e dá sinais de que o dia seguinte tenha já começado a ser decidido mesmo antes de conhecido o resultado. Porquê? Como já se percebeu, o caso de Tancos, a convicção de que o Governo estava informado do achamento fingido - e nele colaborou - e a dúvida sobre aquilo que António Costa conhecia ou não do assunto, provocou inquietação geral. Numa primeira fase, o Bloco e o PCP admitiram que queriam mesmo ver o assunto debatido na Assembleia antes das eleições de domingo e disseram-no publicamente. Mas eis que, chegada a hora da votação, ambos mudaram de posição e colaram-se ao PS na suspensão do Parlamento, fiéis discípulos das manobras de Boris Johnson que tanto criticaram há umas semanas. Esta desistência do Bloco e do PCP de aprofundar o caso de Tancos antes das eleições mostra que as negociações já começaram e que Costa resolveu prevenir qualquer incómodo que viesse de um escrutínio parlamentar nesta altura. PS, Bloco e PCP uniram-se debaixo da bandeira da ocultação. O que acordaram para lá chegarem, saberemos depois. Não resisto a citar a crónica desta semana de Ricardo Araújo Pereira: "O futuro é dos fisioterapeutas. O contorcionismo necessário para defender uma coisa e o seu inverso tem de gerar hérnias muito dolorosas na coluna." Resta-me dizer que a campanha mostra o desgaste dos partidos do regime, o seu tacticismo, as amnésias sobre o que fizeram nestes quatro anos. É tempo de dar oportunidade a que outros protagonistas entrem em cena. Por mim, dou o meu voto à Iniciativa Liberal que, durante a campanha, foi quem melhor soube evidenciar que o rei vai nu.

Semanada

Os pedidos de crédito ao consumo atingiram 20 milhões de euros por dia as poupanças das famílias estão nos níveis mais baixos de sempre e os valores de crédito ao consumo estão acima do período pré-troika de Janeiro a Setembro, 83 mil novos imigrantes tiveram autorização de residência em Portugal as universidades e os politécnicos da região nortenha tiveram no último ano um aumento de 40% nos estudantes internacionais, ultrapassando a região de Lisboa em 2018, foram transacionados 242.091 imóveis em Portugal, um aumento de 6,8% face ao ano anterior. O total dos negócios imobiliários realizados representou um investimento superior a 26,1 mil milhões de euros e só Lisboa registou um volume de investimento de 11,9 mil milhões de euros Portugal é o país da União Europeia onde a diferença entre as taxas de desemprego consoante a qualificação é menor e onde a sobrequalificação dos trabalhadores face ao emprego que desempenham é das mais altas segundo uma sondagem recente, 56% das pessoas informam-se através da televisão, 36% pelos jornais, seja em papel ou online, e 28% pela rádio segundo a Marktest, o Facebook é a rede social em que mais portugueses têm conta, captando 95,3% dos utilizadores de redes sociais, o WhatsApp ocupa a 2.ª posição, com 74,2% de penetração, o Messenger entra para a 3.ª posição, com 70,8%, o que coloca o Instagram em 4.º, com 67,9%.

Dixit
"Azeredo Lopes foi um tolo, fascinado com o jogo de xadrez em que se via jogador mas era peça de tabuleiro"
Pedro Santos Guerreirosobre o roubo de armas em Tancos

Capas climáticas
A edição de Outubro da Monocle traz algumas novidades - no papel, na arrumação dos conteúdos e em algumas novas secções. O tema de capa bate em cima da actualidade - as alterações climáticas -, mas de uma perspectiva um pouco diferente. Já lá vamos. O editorial de Tyler Brulé, o fundador da revista, é sobre a prioridade que as empresas devem dar à escolha das pessoas que a representam junto dos clientes - alguém que seja ao mesmo tempo boa vendedora, acolhedora, que tenha atenção ao detalhe, que saiba o que é prestar um bom serviço ao cliente. No fundo, é este o segredo do sucesso das empresas - criar uma equipa que reflicta os seus melhores valores e faça crescer a sua própria imagem. Nas novidades editoriais, destaca-se um conjunto de novas secções logo no início, que imprimem maior ritmo à leitura da Monocle - em temas que vão da cultura aos tempos livres, mas de uma forma por vezes inesperada, como por exemplo a apresentação da equipa que assegura a gestão das lojas do Victoria & Albert Museum, em Londres, cuja qualidade e inovação explica muito do sucesso da instituição. Na secção de cidades, o destaque vai para Copenhaga, pelo cuidado colocado na manutenção de espaços públicos e no respeito pelos direitos dos seus habitantes. No especial sobre alterações climáticas, há um foco na importância económica que as previsões meteorológicas estão a ter no desenvolvimento de planos de negócio, desde a localização de instalação de fábricas até à construção de hotéis. Na secção de comidas, há um destaque para o Gastrobar do Rossio, no Altis Avenida Hotel e, regressando ao início da revista, há uma pequena secção, Cosy Corner, que apresenta um local para descontrair ao fim do dia, proposto por um dos seus clientes habituais - no caso, um bar em Berlim onde o editor da revista Zeit Magazin gosta de descontrair. E é isto, a Monocle. Volta e meia, ainda surpreende.

Oktoberfest
Outubro é o mês da cerveja e dos festivais em sua honra desde que, em 1810, o rei Luís II da Baviera decidiu criar um festival cervejeiro em Munique para assinalar o seu casamento. O Oktoberfest estendeu-se a várias regiões, foi desenvolvendo versões sempre com uma componente de festa, bebida e comida. Em Lisboa, nasceu há três anos A Cerveja em Lisboa, que se realiza até domingo no Campo Pequeno. Ali estarão disponíveis 30 marcas de cerveja de diversos países e uma série de cervejas artesanais portuguesas como a Dois Corvos, Chica, Velhaca, Sadina, Vadia ou Bolina, entre outras. Estão também presentes marcas internacionais mais tradicionais como a Mahou, a San Miguel e a Warsteiner ou a Erdinger Oktoberfest.
Para que a cerveja não caia em estômago vazio, estão disponíveis várias opções de "street food", entre as quais pretzels autênticos feitos na ocasião. O preço da entrada n’A Cerveja em Lisboa varia entre os 3€ e 5€, consoante o tamanho do copo de prova que quiser levar - está sempre incluído no bilhete. Na sexta-feira e sábado, o recinto está aberto das 16 horas à uma da manhã e no domingo abre à mesma hora, mas encerra mais cedo, pelas 21 horas, já depois de se conhecerem os resultados eleitorais - ainda vai dar para brindar … ou lamentar.

O espelho
Há duas exposições incontornáveis que abriram na semana passada em Lisboa: a impressionante retrospectiva da obra de Rui Sanches, que inaugurou na Cordoaria, e a evocação dos trabalhos de Carlos Correia, na Galeria 111. Rui Sanches apresenta no Torreão Nascente da Cordoaria uma visão retrospectiva da sua obra em escultura, que começa com três peças recentes, uma delas concebida expressamente para esta ocasião, algumas obras inéditas em Portugal do início do seu percurso criativo nos anos 1980, e depois um conjunto de obras verdadeiramente marcantes. A montagem da exposição, um trabalho conjunto do artista e do curador, Delfim Sardo, aproveita da melhor forma o espaço da Cordoaria e proporciona a possibilidade de viajar entre as esculturas, comparando fases, vendo-as de diversas perspectivas. Na folha de sala, Delfim Sardo salienta que a obra de Rui Sanches é "um espelho da escultura e da relação desta com a imagem", sublinhando a complexidade e coerência do percurso criativo de Rui Sanches. Pego nesta citação e na sua relação com a imagem para chamar, desde já, a atenção para um complemento deste "Espelho", que sob a mesma designação vai estar, a partir de dia 9 de Outubro, no Museu Berardo e onde Rui Sanches mostrará trabalhos recentes em desenho sobre papel, fotografia, esbocetos de barro e esculturas de parede em diversos materiais. A exposição na Cordoaria fica até 12 de Janeiro. O outro destaque da semana vai para a exposição evocativa de Carlos Correia, que estará na Galeria 111 (Campo Grande 113) até 9 de Novembro. Desaparecido no ano passado, Carlos Correia vinha a construir um percurso singular, de que talvez uma das melhores referências seja uma das obras expostas, o auto-retrato "O Artista Cego".

Arco da velha
O Juízo de Família e Menores de Mafra está a julgar um caso no qual se decide, entre um casal de ex-namorados, a tutela de uma cadela de raça pitbull.

Outro mundo
Em finais de Junho de 1964, John Coltrane e o seu quarteto juntaram-se no célebre estúdio de Rudy Van Gelder e gravaram temas para a banda sonora de um filme franco-canadiano, "Le Chat Dans Le Sac", do realizador Gilles Groulx. O quarteto atingira o auge da sua forma, estava entre as gravações de dois dos mais importantes momentos da carreira de Coltrane, os álbuns "Crescent" e "A Love Supreme". Que quarteto era este? John Coltrane tocava saxofone tenor, McCoy Tyner estava no piano, Elvin Jones na bateria e Jimmy Garrison no baixo. O mais curioso é que Coltrane acedeu aos pedidos do realizador, que sugeriu a maior parte dos temas a gravar, fazendo até Coltrane rever a sua habitual recusa em regravar temas antigos. O resultado é este "Blue World", agora editado pela primeira vez, depois de as fitas originais terem ficado guardadas (e ignoradas) durante décadas num cofre do National Film Board do Canadá. O resultado são 37 minutos que retratam a forma fantástica dos músicos. Coltrane acedeu ao pedido de Groulx e reinterpretou cinco temas. O disco abre com "Naima", uma das suas melhores baladas, gravada originalmente para o álbum "Giant Steps" de 1960. Depois surge a versão de "Village Blues", que foi utilizada no filme (e que é a melhor das três versões do tema que surgem neste álbum). O terceiro tema é o que dá o nome do disco, "Blue World", uma nova reinterpretação de um original de Harold Arlen e Johnny Mercer’s "Out of This World", que era a faixa de abertura do álbum "Coltrane", de 1962. Esta nova versão, que aqui ganhou o nome de "Blue World", começa com um exercício de baixo de quase três minutos, uma lição de virtuosismo de Garrison e da coesão com os outros músicos do quarteto que vão dialogando com o baixo. "Like Sonny" é também do álbum "Coltrane Jazz", de 1961, e é tida como uma homenagem de Coltrane a Sonny Rollins. "Traneing In" é de um disco ainda mais antigo, "John Coltrane With the Red Garland Trio", de 1958. Blue World já está disponível em CD e no Spotify.

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