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Manuel Falcão - Jornalista 19 de Agosto de 2011 às 11:36

A esquina do Rio

Vítor Gaspar, o nosso estimado ministro das Finanças, é um exemplo perfeito do burocrata europeu.

Prioridades
Vítor Gaspar, o nosso estimado ministro das Finanças, é um exemplo perfeito do burocrata europeu. Simpático (em parte graças à sua expressão de boneco animado), mas burocrata. Politicamente, o facto de o primeiro-ministro ter escolhido um burocrata europeu para ministro das Finanças é revelador do seu enquadramento - condicionou a política financeira às exigências da Europa e não deu abertura a nenhuma fuga ao dogma. Ora, nos tempos que correm, isto é perigoso.

Na segunda-feira, o "Público" tinha uma entrevista com Gustavo Cudell, um empresário há anos a actuar no mercado europeu a partir de Portugal, onde ele referia, quer-me a mim parecer com razão, que a negociação portuguesa para a saída do euro devia ser uma prioridade política. O raciocínio era simples: mais vale prepararmos uma saída com tempo e em condições do que andarmos depois à pressa a pedir migalhas.

O pior que pode acontecer a Portugal é ter no Governo quem seja tão teimoso e obstinado que não consiga perceber a realidade. Já tivemos disso nos últimos anos e eu dispenso a continuação do género politicamente autista. O que eu vejo é um Governo que defende o euro como uma bóia de salvação, quando cada vez mais gente aparece a dizer que, em vez de bóia, o euro é um pedregulho que se afunda e nos arrasta atrás dele.

Às vezes sou levado a pensar que o poder, se calhar, inibe o raciocínio. Portugal tem uma história longa nesta matéria - desde o tempo em que os velhos do Restelo remavam para o passado e tapavam os olhos ao futuro.

Dizer que o futuro do euro é duvidoso é uma frase optimista já hoje. Se persistirmos em manter um enquadramento europeu a todo o custo e não formos capazes de analisar friamente a realidade e de agir em função disto, todos os sacrifícios actuais serão perdidos. A responsabilidade de não comprometer o futuro é do Governo. Alguém devia olhar para a frente e não para trás - como Nouriel Roubini bem alertou esta semana no "The Wall Street Journal".


Pontal
Sinto alguma dificuldade em perceber a persistência no ritual da Festa do Pontal. Sinceramente acho que existe aqui um paradoxo entre um primeiro-ministro que deixa uma nota no Facebook a dizer que vai de férias e que os tempos são de sacrifício, e um dirigente partidário que usa a forma mais estafada de comunicação - um jantar-festa-comício para umas centenas de pessoas numa noite quente de Agosto. Ainda por cima, Passos Coelho falou mais como primeiro- - ministro do que como dirigente partidário numa festa que era do PSD. O Governo começa a ter um sério problema de comunicação - que esta semana foi apontado por vários observadores. Vive ainda num estado de graça invulgarmente longo, mas se persistir em fazer uma comunicação amadora e muito improvisada, esta situação irá alterar-se rapidamente. E, não havia necessidade.


Ouvir
Jerome Kern foi um dos grandes compositores norte-americanos e Oscar Peterson um dos grandes pianistas - e organistas - do jazz. Em 1959 o seu trio - que incluía, à época, Ray Brown no baixo e Ed Thigpen na bateria, meteram mãos a gravar uma colectânea dos grandes temas de Kern, como "A Fine Romance", "The Song Is You", "Smoke Gets In Your Eyes" ou "Ol' MAN River", entre outras. Peterson dedicava-se, nessa época, a revisitar os grandes compositores populares norte-americanos e este tributo a Jerone Kern é um dos registos desse tempo e um dos melhores trabalhos de Peterson e do seu trio. CD Verve, Universal, na FNAC.


Grupo
Antes mesmo de a Lusa ter divulgado a constituição do Grupo de Trabalho sobre o serviço público na área da comunicação, o respectivo presidente, João Duque, anunciou a um jornal diário que não tem de haver um canal do Estado e que o serviço público pode ser contratado aos privados. O senhor, que confessa defender uma visão essencialmente económica do problema, defende igualmente que "há outros consumidores que têm anseios sobre o tipo de produtos que querem ver oferecidos". Faço votos que o Grupo de Trabalho criado tenha meios para fazer estudos de opinião elucidativos sobre os desejos dos consumidores. E confesso que tenho alguma curiosidade em ver se o resultado final irá no sentido da vontade do presidente, João Duque - até para saber quais os países onde o modelo que ele defende funciona.

Continuo a defender que, em matéria de comunicação, o serviço público deve ter preocupações ligadas à língua, a criadores e actividades culturais e de entretenimento portuguesas, mas também deve servir de alavanca de divulgação do empreendedorismo e da invenção. Há uma vertente cultural e uma vertente de comunicação económica no serviço público - seja na rádio, na televisão ou na agência noticiosa. Espero sinceramente, embora tenha as minhas dúvidas, que a tese de João Duque não vingue. E espero que alguém lhe explique a realidade do mercado na área da comunicação e da publicidade, que é uma coisa que, pelo que tem afirmado nos últimos dias, ele me parece desconhecer por completo. Finalmente, não deixa de ser estranho que a Cultura, que tutela o audiovisual, esteja ausente do Grupo de Trabalho.


Provar
Choco frito é uma escolha politicamente incorrecta mas deliciosamente saborosa. A península de Setúbal é a região por excelência deste petisco e das muitas casas que preparam o cefalópode com distinção. Merece referência o Retiro do Gama, entre Palmela e Azeitão, em Cabanas, na Quinta do Anjo. Situado à beira da estrada, na Rua Visconde do Tojal 333, o restaurante oferece peixe sempre fresco numa grelha bem trabalhada e, em apuro de cozinha, uma massada do mar e um arroz de lingueirão que têm fama. Nas sobremesas, se não tiver esgotada, experimente a "mousse" de Moscatel, uma novidade. Reservas pelo telefone 965710693.


Arco da velha
Gabriela Canavilhas vai desfilar como mordoma minhota na Romaria da Senhora d'Agonia, em Viana do Castelo.


Semanada
Horas antes do início da Festa do Pontal o presidente da Câmara de Faro, Macário Correia, defendeu que a austeridade deve ser para todos e não atingir apenas alguns; 24 horas depois Warren Buffet, criticando Obama, disse o mesmo, nos Estados Unidos; George Soros anunciou o fim do euro a curto-prazo; Nouriel Roubini alertou para o perigo de o sistema se destruir a si próprio; França e Alemanha continuam a evitar medidas claras que facilitem uma solução para a crise do euro; o General Loureiro dos Santos disse que Angela Merkel está a conseguir aquilo que Hitler não conseguiu.


Ver
Nos últimos dias foi divulgado um vídeo de Raul Solnado, restaurado pela Cinemateca. Feito na primeira metade dos anos 60, o divertido filme, de 15 minutos, destinado a divulgar como se deve conseguir uma imperial bem tirada, é o exemplo perfeito do trabalho que organismos como o Arquivo Nacional de Imagens em Movimento (Anim) e a Cinemateca fazem para preservar a memória colectiva de todos e o trabalho dos artistas portugueses. Parece que existe, por encomenda do Ministério das Finanças, um inquérito em curso para avaliar da satisfação dos utilizadores da Cinemateca sobre os serviços que a instituição oferece. Espero que o inquérito seja pelas boas razões - para melhorar o que se faz e não para encontrar pretextos para cortar. Se forem ao YouTube e procurarem "Raul Solnado cerveja", o vídeo em causa aparece logo. Vale a pena ser visto - até porque mostra o grande Solnado na sua melhor forma.


Ler
A edição especial de Verão da revista norte-americana "The Atlantic" (já disponível em Portugal), é inteiramente dedicada à publicação de pequenos contos. Sob o título "Fiction 2011", a revista publica pequenas histórias de uma dezena de autores, todas acompanhadas por excelentes ilustrações. A escrita é boa, as histórias são deliciosas e ainda há um brinde: um pequeno ensaio de Anthony Johnston que explica porque é que a narrativa ficcional e a integridade emocional conseguem sempre transcender a verdade dos factos e a realidade. Custa 9,10 euros, contra 6,99 dólares na origem. O dobro, praticamente.



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