Outros sites Cofina
Notícias em Destaque
Opinião
Manuel Falcão - Jornalista 07 de Outubro de 2011 às 11:48

A esquina do Rio

Nos últimos 20 anos, com raras excepções, a política desenvolveu-se dentro de instituições - Parlamento, autarquias, Governo, partidos, Presidência da República.

  • Partilhar artigo
  • 2
  • ...
Política
Nos últimos 20 anos, com raras excepções, a política desenvolveu-se dentro de instituições - Parlamento, autarquias, Governo, partidos, Presidência da República. O universo dos participantes na política é, nestes termos, reduzido e bem definido. Existe a tendência de que o partido (ou partidos) do Governo se concentrem na política do Executivo e descurem a acção política partidária quotidiana - no sentido da participação cívica, da discussão das politicas do dia-a-dia, das tomadas de posição. Infelizmente, o nosso sistema partidário levou a que muitas pessoas que neles ingressaram - por se interessarem pela política - tenham acabado por apagar o seu pensamento e as suas posições, em nome de um suposto interesse partidário.

Nos piores momentos - muitas vezes momentos prolongados - esta actividade política/partidária organizou-se em torno da caça aos lugares no Estado - desde o Governo às autarquias, passando pelas empresas públicas. São raras as excepções que fomentam outro tipo de participação política - com maior apelo à participação das pessoas, com manifestações claras da expressão da vontade individual. O Bloco de Esquerda , o PC e alguns sindicatos têm sido o refúgio de uma actividade política mais centrada no espaço público. Acontece que o espaço público é o lugar por excelência da opinião e da participação e isso foi perdido no nosso sistema político-partidário. Existem todas as razões, na actual conjuntura, para acreditar que a tendência para que surjam mais pessoas descontentes e com vontade de protestar aumente. Nestes dias de crise, austeridade e recessão, a demagogia tem um terreno fértil - desde "os ricos que paguem a crise", até ao "não pagamos", tudo há-de ser usado.

O pior erro que os partidos do Governo podem cometer é ficarem alheados desta situação e persistirem em manter a sua actividade predominantemente no Parlamento. Se alguns partidos, através de sindicatos ou de outras formas, convocam os trabalhadores seus filiados e simpatizantes para protestarem contra as medidas do Governo, os partidos do Governo talvez devam, por sua vez, incitar os trabalhadores seus militantes e simpatizantes. Vamos passar um período de tentativa de afirmação das forças que são contra a estabilização da situação financeira do pais. As pessoas que concordam com a necessidade do esforço que está a ser feito podem ser mobilizadas para mostrarem a sua opinião e vontade, e os partidos do Governo têm a obrigação de ajudar a que os seus apoiantes se façam ouvir. O silêncio nunca ajudou ninguém em política. Eu trabalho e quero continuar a trabalhar - em Portugal.


Provar
Nos mais pequenos cafés podem existir boas surpresas. O Astro, que fica na Avenida Guerra Junqueiro 6B, tem uma predilecção por produtos portugueses que vale a pena explorar: empadinhas de leitão da Bairrada ou de galinha, de várias proveniências, mas com destaque para uma receita tradicional de Castelo Branco. Vale a pena provar os pastéis de requeijão e espinafres e, para adoçar, cair na tentação das queijadinhas de Évora. No fim, pode levar para casa umas suaves popias de Alcáçovas, da casa Maria Vitória, ou escolher um dos muitos doces caseiros regionais que estão nas prateleiras.


Ouvir

Hoje apetece-me ser como o Professor Marcelo e recomendar várias coisas - neste caso o que tenho andado a ouvir, não a ler. O meu primeiro destaque vai para um cabo-verdiano, de seu nome Tcheka, que fez um disco invulgar e escaldante, chamado "Dor de Mar". Eu garanto que não se trata de uma mania especial por World Music, mas não resisto a recomendar também o disco gravado ao vivo de Caetano Veloso e Maria Gadú. Bem sei que alguns amigos meus se vão rir desta recomendação - mas o disco é verdadeiramente arrebatador - trata-se de um duplo CD, cheio de calor e sentimento. Há muito que não me divertia tanto a ouvir um disco brasileiro.


Televisão
Vale a pena ter um serviço público de televisão? Vale, se o investimento for reprodutivo e estratégico. Se for apenas para manter uma estrutura e um aparelho instalados, não vale. A divulgação e manutenção da língua e da cultura portuguesa são o objectivo estratégico em que vale a pena investir. Isto, traduzido para televisão, o que quer dizer? Vou por partes: em primeiro lugar, provavelmente, temos que passar de uma estação de televisão que faz tudo, como a RTP, para um "broadcaster" que se limita a escolher conteúdos, fazer encomendas de produção e alinhar a sua emissão. Escolher conteúdos tem a ver com o investimento - que é o que os contribuintes vão pagar. Eu diria que uma programação infantil de qualidade, com uma parte importante de produção em língua portuguesa, uma produção de documentários relevante, uma memória da obra de criadores portugueses - do teatro às diversas formas de músicas - passando por obras audiovisuais que acompanhem a ficção de autores clássicos e contemporâneos portugueses, poderia ser um bom ponto de partida. Tudo isto pode ser feito por produtores independentes, que aliás já têm experiência nas diversas áreas, privilegiando o investimento em obras que possam circular no universo da lusofonia e que não se esgotem no seu momento de emissão. A RTP não faz nada disto, de forma sistemática, desde há décadas. Os seus enormes e caros meios técnicos na produção e na informação não são necessários para a definição de serviço público - e são uma das causas dos custos que existem hoje em dia. Se é certo que uma estação de televisão precisa de informação na sua programação, nada obriga a que ela a faça internamente - pode concessionar uma boa parte da actualidade a produtores e até a estações privadas, como hoje acontece em alguns países. Eu preferiria aliás que a estação de serviço público não tivesse um aparelho de informação gigantesco e que tratasse sobretudo de programação, de encomenda de conteúdos e de uma criteriosa escolha de compras internacionais. Neste campo, das compras internacionais, não faz sentido, hoje em dia, que a melhor produção, por exemplo, da BBC, não seja exibida no serviço público. Se há uns anos podia fazer sentido passar séries da Fox ou Sony que de outra forma aqui não seriam exibidas, hoje, com a penetração do cabo a atingir 70% dos lares, esta opção não faz qualquer sentido. Vale a pena olhar para a produção europeia de séries e de documentários, vale a pena olhar para a produção independente de cinema de todo o mundo. O serviço público de televisão só faz sentido se o investimento público que lá for colocado servir para desenvolver uma indústria de audiovisual nacional e para criar e fazer crescer novos públicos. Se é para fazer mais do mesmo, não vale a pena.


Arco da velha
Nove médicos da Costa Rica estão desde Maio a receber 2800 euros sem trabalharem, porque continuam sem ter as suas certidões profissionais em Portugal aprovadas e os centros de saúde onde deviam estar continuam sem contar com o seu trabalho.


Semanada
Depois de, como primeiro-ministro, ter criado o tempo das ilusões, Cavaco, como Presidente da República, decretou o fim do tempo das ilusões: da mesma forma que liquidou as pescas e a agricultura, por imposição da Europa, Cavaco vem agora fazer de conta que quer rever o que destruiu; Mário Soares elogiou o discurso de Cavaco Silva.


Ler
Em vez de um livro ou revista, vou falar de uma aplicação - um agregador de conteúdos. No iPad há duas aplicações nesta área que funcionam muito bem: o "Pulse" e o "Zite". Confesso que prefiro este último pela oferta diversificada que faz de conteúdos. Qualquer uma destas aplicações dá a possibilidade de escolher que temas queremos ver com maior atenção, às vezes apenas por palavras. Por exemplo, no Zite, sei o que se escreve sobre Portugal por esse mundo fora, para além das áreas que me interessam mais do ponto de vista profissional. De modo que a minha sugestão de hoje é uma aplicação para iPad - a Zite. Eu vou lá todos os dias.


Ver
Em primeiro lugar, o sítio a ir é a Moda Lisboa. Aqui pode ver as melhores propostas de estilistas nacionais num esforço que há anos se desenvolve para que se compreenda a importância da criatividade na economia. Em segundo lugar, sugiro que visitem o espaço da Plataforma Revólver, na Rua da Boavista 84. Recomendo a exposição "Máquina - Cultura do Progresso". Destaque ainda para "Viajantes & Viagens de Fotógrafos", com imagens de António Júlio Duarte, Caio Reisewitz, Cristina Ataíde, Marcelo Moscheta, Mariana Viegas e Ynaiê Dawson.


www.twitter.com/mfalcao
mfalcao@gmail.com
www.aesquinadorio.blogs.sapo.pt

Ver comentários
Mais artigos do Autor
Ver mais
Outras Notícias