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Manuel Falcão 29 de Maio de 2020 às 11:12

As marcas, a comunicação e a publicidade

Quando, em meados de março, foram decretadas as medidas do estado de emergência, tudo no mundo dos meios de comunicação social começou a mudar.

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"Um diplomata é alguém que o pode mandar para o Inferno de tal forma que até lhe apetece lá ir."
Caskie Stinnett

As marcas, a comunicação e a publicidade
Quando, em meados de março, foram decretadas as medidas do estado de emergência, tudo no mundo dos meios de comunicação social começou a mudar. A procura de notícias aumentou e, nas primeiras semanas, o consumo de televisão cresceu significativamente, quer nos canais generalistas, quer nos canais de informação do cabo, ao mesmo tempo que o consumo de internet explodiu. Criaram-se novos hábitos. Mas, com o encerramento da actividade económica, os anunciantes retraíram-se e, apesar de o consumo dos "media" ter aumentado, o investimento publicitário diminuiu, e muito. Agora, a actividade económica está a retomar e as marcas precisam de voltar a estar na mente dos consumidores. Nestes meses, muitas destas marcas saíram do dia a dia das pessoas e algumas arriscam o esquecimento. Como, infelizmente, há empresas que vão fechar, algumas marcas desaparecerão. Será que os consumidores vão perceber logo quais são as sobreviventes e dinâmicas? A verdade é que quem não fala desaparece, quem estiver ausente fica esquecido. Quem está à espera de decidir se vale a pena retomar a publicidade agora, pode ficar para trás na corrida de fundo que é a recuperação da economia. A publicidade é parte integrante dos conteúdos consumidos por quem segue televisão, rádio, imprensa, online, por quem anda na rua e vê "outdoors". Sem presença regular nos meios de comunicação nacionais, as marcas portuguesas comunicam pior, têm menos pontos de contacto com os consumidores. Publicidade e conteúdos andam de mãos dadas. As marcas portuguesas precisam dos canais de comunicação proporcionados pelos "media" nacionais e os "media" nacionais precisam da publicidade para continuarem a desempenhar o seu papel.

Semanada

As idas ao multibanco caíram para metade em Abril, devido ao confinamento, e as compras realizadas com cartões desceram para mínimos desde 2009 os sites de "e-commerce" mais visitados em Abril foram os da Worten e da FNAC, seguidos do Aliexpress, Continente e Amazon, refere um estudo da Marktest o valor da facturação do sector da restauração na primeira semana de abertura representou 40% do valor médio pré-confinamento 54% da receita do IRC depende de 0,4% das empresas que existem em Portugal as contas públicas registaram um défice de 1650 milhões de euros até Abril, mais 341 milhões que no mesmo período do ano anterior em Portugal, houve um aumento de perto de 50% no tráfego em sites marginais da internet que permitem o acesso pirata a canais de televisão de cabo e de "streaming" há 400 mil pessoas a necessitar de ajuda alimentar os 36 drones comprados pelo Estado há dois anos para o Exército, com o objectivo de detectarem fogos em colaboração com a Protecção Civil, nunca foram usados uma locomotiva de 1924, exemplar único no mundo, está num barracão da estação da Pampilhosa da CP e já foi vandalizada por várias vezes em Santarém, existem 42 lares de idosos "não legais", o dobro do que se pensava  nos quatro maiores hospitais do país, há cerca de 100 doentes que não têm para onde ir, à espera de vaga num lar. 


Dixit
"Já pagou as suas notícias de hoje? Ou está à espera que seja o Estado a pagar? Este é o problema dos media e ninguém parece entender-se sobre o que fazer"
Catarina Carvalho

E a seguir?
Desde que a pandemia começou, a revista mensal Monocle tem alterado radicalmente o conteúdo editorial. A edição de Maio focou-se na casa das pessoas, onde cada um estava a passar o confinamento - com sugestões, ideias, exemplos de coisas para fazer. Agora, na edição de Junho, o tema é "What Happens Next?". Para responder à pergunta, a Monocle convidou 50 personalidades de todo o mundo, 50 pensadores "que se atrevem a sonhar", como a revista os designou. Aqui estão nomes como o filósofo Alain de Botton, o arquitecto Daniel Libeskind, o economista Daniel Kahneman, entre muitos outros, incluindo governantes de vários países e responsáveis urbanísticos. Os temas abordados vão desde a resiliência das cidades até ao futuro dos cruzeiros marítimos, o que se pode esperar da aviação, passando por estratégias para manter a funcionar pequenos comércios. Alain de Botton escreve sobre o estoicismo dos romanos, baseado em manter a calma e continuar a fazer o que cada um é suposto fazer - é um bom tiro de partida para toda a edição. Um especialista canadiano em agricultura, Jean-Martin Fortier, acredita que a pandemia levou as pessoas a pensar mais sobre de onde vem a comida, como se cultiva e como se deve utilizar sem desperdícios; sobre as cidades, urbanistas recomendam que as autoridades de planeamento passem a ter como prioridade a criação de infra-estruturas focadas nas necessidades reais das pessoas que nelas vivem permanentemente. Um dos mais curiosos artigos tem que ver com as saudades que, ao fim de dois meses em casa, muitos sentiram dos seus escritórios - é certo, diz o seu autor, que a pandemia provou que se pode trabalhar de forma remota, mas isso não significa o fim dos escritórios e sim a possibilidade de revermos como funcionamos. Um dos artigos de que mais gostei foi aquele em que se defende a importância da rádio - as emissões radiofónicas oferecem aquilo que nenhum outro meio pode oferecer: uma espantosa combinação de actualidade, intimidade e humanidade.

Artes contemporâneas
Iniciada em 2016, a ARCOlisboa, feira internacional de arte contemporânea, decorreu até este ano na Cordoaria Nacional. Em 2020, por força das coisas, transformou-se num evento online, com a duração de quatro semanas, e vai estar disponível de 20 de maio a 14 de junho no site arcolisboa.com, em parceria com a plataforma artsy.net, apresentando e comercializando obras das galerias selecionadas pelo Comité Organizador da feira e pelos comissários das secções Opening e África em Foco. Estamos a falar, nas galerias convidadas, de mais de quatro dezenas de stands virtuais - a maioria, duas dezenas, de galerias espanholas, seguidas por galerias portuguesas e também galerias do Reino Unido, Japão, Áustria, Itália, Brasil e Uruguai. Na secção Opening, destinada a novas galerias, estão mais de uma dezena de participantes e, na África em Foco, uma dezena. Centenas de obras de pintura, escultura e fotografia estão disponíveis num circuito virtual, nem sempre com a navegação online mais evidente. Gostaria de destacar a secção África em Foco, coordenada por Paula Nascimento, e que mostra a diversidade das propostas dos artistas de diversos países (África do Sul, Angola, Moçambique, Uganda, Zimbabwe) que ali estão - saliento, pessoalmente, os trabalhos de Ângela Ferreira, Filipe Branquinho, René Tavares, Thó Simões, Keyezua e Musa Nxumalo. Outra sugestão: para sairmos do mundo virtual, recomendo uma visita à Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva, na Praça das Amoreiras, para descobrir a exposição "Água Pesada", que até 19 de Setembro mostra belíssimos desenhos a grafite de Alexandre Conefrey. Ali ao lado, na Casa Atelier Vieira da Silva, Inez Teixeira apresenta "Phytographia Curiosa", um conjunto de desenhos a tinta-da-china sobre papel.

Arco da velha
Um indivíduo de 20 anos que estava em prisão domiciliária com pulseira electrónica incendiou seis veículos na rua onde vivia, em Lisboa, com o objectivo de ver bombeiros e polícia a actuarem.

A dança de Nídia
Quando um disco tem por título uma frase de um poema de Jorge de Sena, nasce de uma etiqueta alternativa de rap e música de dança dos arredores de Lisboa (Príncipe Discos), é feito e produzido por uma portuguesa de origem africana que viveu em França, e tem lugar de honra na crítica semanal de discos do The Guardian londrino, alguma coisa se passa. O álbum é "Não Fales Nela Que A Mentes", o segundo disco de Nídia que o The Guardian descreve como "um novo trabalho mais meditativo, que mostra uma variedade de ritmos de dança com enfoque na emoção e desassossego". São dez faixas, com destaque para "Raps", "Capacidades", "Nik Com", "Popo" e "Emotions". Nídia Sukulbembe tem 23 anos e ganhou notoriedade como DJ um pouco por todo o mundo. Este seu segundo disco é fruto de uma experiência de pistas de dança mais amadurecida. Nídia, nascida numa família guineense, cresceu no Barreiro e mais tarde foi viver para Bordéus, onde ganhou contacto com músicos de outras nacionalidades, mas manteve sempre a ligação à Príncipe Discos. Há um ou outro elemento vocal, mas este é o reino do instrumental, do baixo e da percussão, com uma elegância invulgar na mistura. A Pitchfork diz que a aproximação de Nídia à música "é eficiente e elementar, criando a complexidade através dos arranjos" - "Emotions" é um perfeito exemplo disso mesmo.

A ideia de um grande chef
Massimo Bottura é o criador de um dos restaurantes mais famosos do mundo, a Osteria Francescana, de Modena. Na edição da Monocle acima referida, escreve sobre como os restaurantes podem sobreviver - e renascer - no pós-covid. Admite que já não tem reservas do estrangeiro como costumava ter, mas está contente porque as marcações de italianos que queriam conhecer o seu restaurante explodiram. Bottura defende que se aproveitem todos os ingredientes e fez mesmo uma série de vídeos durante o confinamento, "Kitchen Quarantine", focados em evitar o desperdício. O que se está a passar vai levá-lo a rever a forma como trabalha: admite fazer menus de degustação mais curtos, está a criar uma linha de "takeaway", em que os ingredientes serão embalados de forma separada, para cada pessoa depois acabar de preparar o prato em casa, como o próprio restaurante faria. E confessa que, quando outros chefs lhe perguntam o que devem fazer, responde sempre o mesmo: cada vez mais temos de ter em conta os produtores locais. "Somos os embaixadores dos melhores produtores de produtos frescos, de queijos, dos pescadores - e o dever dos chefs é fazer com que os heróis sejam os produtores." Em Lisboa, alguns restaurantes, como por exemplo o Salsa & Coentros, em Alvalade, ou o Essencial, junto ao Príncipe Real, fizeram menus especiais de "takeaway" durante o confinamento, sugestões fora da carta habitual, com pratos que deviam ser acabados em casa de cada um. Mais informações em www.restaurantesalsaecoentros.pt ou www.essencialrestaurante.pt.


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