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Manuel Falcão 19 de Junho de 2020 às 10:12

As novas ditaduras

Nunca gostei que me dissessem o que não podia ler, o que não podia escrever, o que não devia pensar. Também não me agrada que me digam do que devo gostar.

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Um fanático é alguém que é incapaz de mudar de ideias e que não quer mudar de assunto.
Winston Churchill

As novas ditaduras
Nunca gostei que me dissessem o que não podia ler, o que não podia escrever, o que não devia pensar. Também não me agrada que me digam do que devo gostar. Desagrada-me quem julga ter por missão indiscutível defender valores que podem ser os seus, mas não são os de todos - na religião, na ideologia, na política, nos costumes, na estética ou na ética, para só citar alguns. Prezo a liberdade de poder tomar decisões, arcando com a responsabilidade inerente. Habituei-me a pensar que a minha liberdade acaba onde começa a dos outros e tenho tentado viver assim. E irrita-me que alguém tente entrar na minha liberdade, na minha maneira de encarar a História, na minha maneira de ver os acontecimentos.

Por isso, para mim, o Livre é tão perigoso como o Chega e os últimos dias têm provado isso mesmo - mas não me ocorre dizer-lhes o que devem fazer. Existem certamente formas de analisar a História. Mas não existem duas Histórias. Existem factos, e depois existem interpretações - e estas são de quem as quiser formular, desde que não pretendam impô-las aos outros. Acontece que, desde há uns anos, em todo o mundo, se evolui para uma forma de protoditadura que veste as roupagens do politicamente correcto, em que alguns decretam o que está certo e fazem julgamentos por conta própria. Muito facilmente se começou a confundir direitos de uns com pecados de outros e criou-se a tendência de querer que toda a sociedade aceite como verdade inquestionável aquilo que apenas a parte dela interessa. E isto é inaceitável, seja qual for o tema. É uma nova forma de ditadura.

Dixit
"É perfeitamente desejável que possamos ter um Banco de Portugal acima da conflitualidade política e não como parte do combate político"
António Costa em 2015, sobre o processo de nomeação do governador do Banco de Portugal

Semanada
O Estado não sabe ao certo quantos prédios possui, nem tem ideia do valor do seu património imobiliário, revela uma auditoria da Inspecção-Geral de Finanças o Governo construiu o Orçamento retificativo com uma estimativa de contração do PIB de 6,9% e, uma semana depois, o Banco de Portugal pôs em causa os pressupostos utilizados pelas Finanças, avançando com uma previsão de uma recessão de 9,5%  Portugal é um dos 12 países com taxa de inflação negativa na Zona Euro três anos passados sobre a tragédia de Pedrógão Grande, o SIRESP continua sem cobrir várias das zonas atingidas segundo bombeiros da região, as florestas dos concelhos onde morreram 66 pessoas estão por limpar o deputado europeu do PAN abandonou o partido, mas não o seu lugar em Bruxelas, acusando a organização de colagem à esquerda o mercado português registou a segunda maior quebra na venda de automóveis ligeiros na Europa foi descoberto um depósito de 30 mil toneladas de resíduos perigosos numa antiga zona industrial de Setúbal, onde estão há mais de 20 anos segundo a Marktest, durante o confinamento aumentou o consumo de pizza e de cápsulas de café o número de cesarianas realizadas nos hospitais públicos subiu pelo terceiro ano consecutivo, atingindo em 2019 cerca de 30% dos partos realizados o saldo entre nascimentos e mortes em Portugal continua negativo pelo 11.º ano consecutivo, mas, pela primeira vez nos últimos dez anos, regista-se um aumento da população, graças à imigração. 


O som da pandemia
Quando a pandemia alastrou, o pianista Brad Mehldau estava a meio de uma digressão pela Europa, que foi interrompida. Mehldau, casado com uma holandesa, divide o seu tempo normalmente entre Amesterdão e Nova Iorque, cidade para onde iria quando tudo se precipitou. Durante meses esteve fechado na sua casa de Amesterdão e compôs 12 temas que integrou num álbum inesperado a que chamou "Suite: April 2020". O disco evoca o espírito do tempo, do mês de Abril, em que a pandemia dominou o mundo. A capa do disco é o texto de uma mensagem do pianista, que descreve a música que compôs como um retrato sonoro de um tempo em que todos tiveram de se reencontrar a si mesmos. Os 12 andamentos da suite têm nomes como "Keeping Distance", "Stopping, Listening, Hearing", "Remembering Before All This", "Uncertainty", "Waiting" e três momentos do quotidiano do confinamento: "In The Kitchen", "Family Harmony" e "Lullaby". Há ainda três versões que Brad decidiu fazer de composições de outros músicos, três temas que escolheu como canções adequadas ao espírito deste tempo: "Don’t Let It Bring You Down" de Neil Young, "New York State Of Mind" de Billy Joel e "Look For The Silver Lining", de Jerome Kern. Disponível em edição especial limitada de vinil, em CD e no Spotify.

Crime e mistério
Comecei a ler policiais pela mão da colecção Vampiro - primeiro, emprestados por um amigo, depois religiosamente comprados à medida que iam saindo. Foi ali que descobri os mestres dos policiais, e um dos que mais me atraíram foi Raymond Chandler, sempre com o seu detective Philip Marlowe. Chandler nasceu em Chicago em 1888 e era administrador de empresas petrolíferas quando veio a Grande Depressão, em 1932. Foi nessa altura que começou a escrever - primeiro, contos policiais e, depois, novelas. Este mês, encontrei nas reedições contemporâneas da colecção Vampiro o seu segundo romance, "Farewell My Lovely", ou "Perdeu-se Uma Mulher". Voltei a descobrir o prazer da definição de personagens que Chandler fazia. É um estilo bem distante dos modernos policiais nórdicos que ultimamente são a minha paixão e que se baseiam na definição do perfil psicológico de polícias e criminosos. "Perdeu-se Uma Mulher" é o segundo romance de Chandler, originalmente publicado em 1940, a partir da junção de três contos que já tinha publicado em revistas. Mais tarde, a história passou a filme, protagonizado por Robert Mitchum. Com uma boa tradução de Paula Reis, "Perdeu-se Uma Mulher" descreve a Los Angeles dos anos 1940, os bastidores violentos e corruptos que evidenciam as tensões de uma grande cidade, com um cenário de tráfico de droga, jóias roubadas, mulheres sedutoras e assédios variados. Hoje em dia, tudo o que é politicamente correcto cairia em cima do escritor e dos métodos do seu detective Marlowe. Se tal tivesse acontecido quando Chandler começou a escrever, ter-se-ia perdido um dos grandes autores da literatura policial. Talvez em vez disso se tivesse escrito um outro livro - "Os Crimes do Politicamente Correcto".

MAAT reinventado
E pronto, o maat finalmente reabriu após o confinamento e as obras de manutenção da estrutura afectada por uma tempestade no Inverno passado. Três destaques: a intervenção arquitectónica "Beeline", a experiência sonora "Extintion Calls" e o "PeepShow". As duas primeiras ficam até Janeiro do próximo ano, a última até 19 de Outubro. "Beeline" é uma intervenção arquitetónica que foi encomendada ao estúdio nova-iorquino SO - IL, e que ocupa a totalidade do edifício do maat. Trabalho de arquitetura efémera, área de eleição daquele ateliê até à data, "Beeline" foi concebido para acolher o "maat Mode 2020", um programa público de palestras e outros eventos com uma duração de seis meses lançado pela nova diretora do maat, Beatrice Leanza. "Extinction Calls" é uma encomenda especial a Cláudia Martinho, na qual a artista usa sons do arquivo para criar um percurso sonoro com espécies de aves extintas e ameaçadas. A paisagem sonora é espacializada em ressonância com o espaço acústico do maat e da intervenção "Beeline", criando uma diversidade de pontos de escuta. "PeepShow" agrupa um conjunto de 15 estruturas portáteis, cujo interior pode ser observado por vigias de grandes dimensões e está integrado na "Beeline". Estão expostas peças da colecção de arte Fundação EDP e cada uma das intervenções é o ponto de partida para uma série de conversas em torno da relação entre arte e realidade, que terão a participação dos artistas representados: Catarina Botelho, Paulo Brighenti, Tomás Colaço, Luísa Ferreira, Horácio Frutuoso, Mariana Gomes, Pedro Gomes, André Guedes, João Louro, Maria Lusitano, João Ferro Martins, Paulo Mendes, Rodrigo Oliveira, Francisco Vidal e Valter Vinagre.

Arco da velha
Caso Mário Centeno seja nomeado governador do Banco de Portugal, a sua acção vai ser avaliada por um conselho de auditoria que o próprio nomeou enquanto ministro das Finanças.

O italiano que se apaixonou por Sagres
Sagres sem vento e com a água do mar a boa temperatura? Pois, é raro, mas acontece. De qualquer maneira, foi com esse pano de fundo que, passeando pelas ruas do centro, junto à pousada, encontrámos o Mum’s. À frente da casa, mal saída ainda do confinamento, está um italiano que há 11 anos trocou o restaurante que tinha em Milão e rumou a Portugal. Apaixonou-se por Sagres, convenceu a namorada, também italiana, a segui-lo e os dois puseram de pé o Mum’s passado um tempo. O foco da casa é a utilização de produtos da região, do azeite a frescos, com destaque para os produtos biológicos de produtores da costa vicentina, passando, é claro, pelo peixe, escolhido na lota de Portimão. Simão, aliás Simone, "sommelier" de formação, apaixonou-se pelos vinhos portugueses, de que fala com conhecimento e entusiasmo - sobretudo dos vinhos do Douro. Antes da covid, o Mum’s era conhecido pelos "cocktails", servidos no bar e numa pequena esplanada - tinham boa fama os "negroni", por exemplo. Agora, com menos mesas e o balcão à espera de melhores dias, o foco está nos jantares. A decoração do Mum’s é simples e imaginativa, Simão é um anfitrião notável, um contador de histórias, e na cozinha está um jovem chef português, de origem ribatejana, Alexandre Fidalgo. O couvert é simples e bom - do pão às azeitonas, passando por uma manteiga fermentada e uma maionese vegan. Nas entradas, provou-se, com muito gosto, cavala fumada em "consommé" frio de peixe. A lista apresenta várias sugestões vegetarianas, mas inclui também opções para hereges dessa crença, como um magnífico polvo frito, extraordinário de textura e sabor, acompanhado por "cevasotto" de lima e aipo, que mais não é que uma variante de "risotto" em que o arroz é substituído por grãos de cevada. Outras opções boas são o filete de peixe do dia com puré de aipo, nabo e agrião, ou o lombo de bacalhau, acompanhado de esmagada de batata com alecrim e espargos verdes. A refeição foi acompanhada por um Vale Pradinhos reserva branco, que cumpriu muito bem. No Mum’s, não sei que elogie mais - se o talento da cozinha, se a hospitalidade de Simão. Na próxima ida a Sagres, lá voltarei. Mum’s, Rua Comandante Matoso, 917 524 315, aberto aos jantares todos os dias, excepto à terça-feira.

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