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Manuel Falcão 30 de Abril de 2020 às 10:53

Próximo futuro

Cada vez que temos uma crise vem à baila o problema da nossa dimensão. Foi uma coisa que sempre me fez alguma impressão quando olhava para outros países europeus e comparava connosco.

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"É das grandes complexidades que as soluções de maior simplicidade nascem."
Winston Churchill

Próximo futuro
Cada vez que temos uma crise vem à baila o problema da nossa dimensão. Foi uma coisa que sempre me fez alguma impressão quando olhava para outros países europeus e comparava connosco. E, quando olhei para a nossa História, e percebi que há uns séculos tínhamos sido precursores da globalização, fiquei ainda mais convencido de que, se um dia descobrimos rotas novas, adequadas aos tempos presentes, podemos voltar a descobrir um caminho. Os Descobrimentos foram a nossa via de expansão. Hoje em dia, quando a globalização está em retrocesso, podemos ser os beneficiários de, pelo menos, segmentos da desglobalização. Isto aplica-se à indústria, onde temos produção de excelência em várias áreas e tendo em conta o posicionamento da nossa localização em termos de logística comercial. Se temos uma posição geoestratégica relevante em termos políticos e militares, só temos de criar condições para que isso reverta de forma positiva noutras áreas, nomeadamente na economia. Tal como há séculos, a nossa via de expansão vai passar pela nossa capacidade, de descoberta e investigação. Estes tempos muito recentes mostram que temos conhecimento e que as pessoas conseguem avançar, em diversas áreas, desde a investigação biomédica até ao desenvolvimento tecnológico. As decisões e medidas para conseguirmos este próximo futuro é que serão a pedra de toque da capacidade política de quem nos governa. Na política, o que interessa é o que se faz, não o que se promete.

Semanada

Cerca de 150 mil famílias já têm sérios problemas para comprar comida e pedem assistência a várias instituições desde o início da pandemia de covid-19, já chegaram ao Banco Alimentar mais de 11.600 pedidos de ajuda de agregados familiares a Segurança Social já analisou cerca de 62 mil pedidos de lay-off, mas, até agora, só 62% das candidaturas têm condições para serem aprovadas e, das 38 mil empresas que viram o seu processo viabilizado, 88% preferiram parar totalmente a atividade e só 12% preferiram reduzir o horário aos trabalhadores desde o início das medidas de confinamento, as autoridades das fronteiras já impediram a entrada em Portugal de 1.852 pessoas na Alemanha, é obrigatório o uso de máscaras nos transportes públicos e lojas, e as multas por desobediência atingem os dez mil euros  de acordo com a Direcção-Geral da Saúde, até agora, o excesso de mortalidade foi de mais 307 óbitos comparativamente com a média dos últimos cinco anos  segundo o barómetro de opinião Covid-19 da Marktest, os portugueses dedicaram uma média diária de 5h54m ao teletrabalho, 4h29m a ver TV, aceder à Internet ou ouvir rádio e 3h13m a estudar; ainda segundo a Marktest, 76% dos portugueses consideram que o uso de máscara fora de casa deveria ser obrigatório, mas apenas 47% dispõem delas finalmente, a mesma sondagem indica que a ideia de ser contaminado continua a ser o maior receio dos portugueses, logo seguido dos receios de falência da economia nacional e com o aumento do desemprego  em março, registaram-se mais 53 mil desempregados que no mesmo mês do ano passado, um aumento de 34%.

Dixit
"As plantas não tiram férias, nem fazem lay-off e não podemos cuidar delas em teletrabalho."
Manuel Silva
Presidente da Associação de Horticultores da Póvoa do Varzim

Números & enganos
"Como estatísticas, percentagens e análises nos enganam e desenganam" é um subtítulo que chama logo a atenção. A frase justifica o título, "O Poder Dos Números", da holandesa Sanne Blauw, escrito em 2018 e que por estes dias ganhou especial relevância com a torrente de informação que envolve a conjuntura actual. Blauw é doutorada em Econometria e divulgadora de Numeracia, procurando guiar-nos a destrinçar a verdade no meio dos gráficos e dados com que somos bombardeados todos os dias. Afirma que a sua missão é pôr os números no seu lugar. A autora explora as falsidades escondidas pelas análises quantitativas descontextualizadas, muitas vezes usadas para fazer interpretações distorcidas que podem inspirar decisões políticas e, até, pretender explicar comportamentos. Sanne Blauw sublinha que este livro é sobre números, mas é acima de tudo sobre as pessoas por trás deles e para todas aquelas que são levadas a fazer erros de julgamento. Ela revela como até perigosos absurdos são anunciados com base em números, ensinando-nos a olhar de forma crítica para os resultados de estudos. Como Blauw afirma, "as histórias por trás dos números são mais interessantes que os próprios números".

O estilo Parr
Martin Parr é um dos mais conhecidos fotógrafos da agência Magnum e criou um estilo muito pessoal de observação do mundo à sua volta. Foca-se em temas que vão do dia-a-dia à moda e a cenas de rua, do quotidiano das praias e espaços públicos, à intensidade da comida e das suas cores e aos contrastes das sociedades. Frequentemente, usa teleobjetivas para "aplanar" as perspectivas e pôr em primeiro plano pormenores. Muitas vezes, usa um anel de flash à volta da objectiva para criar uma iluminação que faz sobressair as cores. É um observador por natureza e é isso que faz dele um dos mais procurados nomes da Magnum. Tem quatro dezenas de livros publicados (alguns resultantes de encomendas, como um, magnífico, que fez para a Universidade de Oxford), realizou dezenas de exposições (uma delas esteve em Lisboa, há uns anos, numa galeria dedicada à fotografia, a Barbado, entretanto já extinta), criou em Bristol, onde ainda vive, uma fundação com o seu nome, à qual ofereceu a sua colecção de "photobooks", considerada uma das maiores do mundo - e co-escreveu os três volumes da maior obra de referência sobre livros de fotografia, "The Photobook: A History". No Instagram, podem ver a página da fundação, martinparrfdn, e ter uma visão do trabalho do fotógrafo em martinparrstudio, de onde é tirada a fotografia que aqui apresentamos, realizada em Ialta. Vale a pena também a ver o seu site, martinparr.com.

Sem regras
Lucinda Williams, 67 anos, disse, numa recente entrevista, que não compreende porque é que as pessoas têm a ideia de que devem ficar mais suaves e contemporizadoras com a idade. O seu novo álbum, "Good Souls, Better Angels", o 14.º disco de originais da sua carreira de quatro décadas, é testemunho disso mesmo, com canções intensas nas palavras e na música e com a guitarra em destaque. A voz rouca e forte de Lucinda Williams destaca-se logo desde a primeira faixa, no afirmativo "You Can’t Rule Me", uma declaração de princípios dela própria sobre aquilo de que não abdica - a sua alma, os seus pontos de vista e o seu dinheiro. Cada vez mais "bluesy", Williams diz que este é o seu disco "garage rock" - guitarra, bateria e baixo, um pano de fundo musical que vai bem com o lado explosivo das canções. Eis um belíssimo disco para estes tempos - energia, vontade de mudança, convicções fortes. Destaco uma balada irresistível, "Big Black Train", em que as guitarras se destacam, "Man Without Soul", na qual ela proclama "You bring nothing good to this world", um "Shadow & Doubts", onde promete "I’m gonna pray the devil back to hell.". E sobretudo o tema final, "Good Souls", com o desejo "Help me stay fearless, help me stay strong". Disponível no Spotify.

Arco da velha
O Supremo Tribunal de Justiça reduziu e suspendeu a pena de prisão aplicada a um homem de 55 anos, que abusou sexualmente de duas meninas de seis e nove anos, filhas de militares do Exército.

Ovos bêbados
Antes da receita que experimentei esta semana, aqui vai um desabafo: sinto falta dos meus restaurantes preferidos, de coisas tão corriqueiras como ver pessoas que não conheço, mas que são também clientes regulares, e com quem acaba por se estabelecer uma cumplicidade de frequentadores de um local, mesmo que nunca tenhamos trocado uma única palavra. Um restaurante é muito mais que comida, é um ponto de encontro, uma roda de amigos, um espairecer. A este propósito, no fim-de-semana, li uma das melhores coisas sobre o que é um restaurante num ensaio escrito para o The New York Times pela proprietária e chef do Prune, Gabrielle Hamilton - o Prune fechou por causa da pandemia e ela duvida de que o mundo da restauração, dos pequenos bistrôs onde os clientes são amigos, volte a existir como era antes de tudo isto. Com restaurantes fechados, resta-me ir lendo receitas, experimentando e inventando. Esta de hoje foi uma invenção, depois aprimorada por umas leituras que se encaixavam na ideia. Noutro dia, tive de aproveitar gemas de ovo que tinham sobrado de um cozinhado e resolvi batê-las com um pouco de espumante, Murganheira Bruto, que é o português que normalmente existe cá em casa. O resultado foi interessante, levou-me a ler sobre o tema e descobri uma receita que encaixa: uma fatia de pão de boa qualidade, levemente tostada, barrada com manteiga, com ovos mexidos com champanhe por cima, e com umas fatias de salmão fumado a rematar. O segredo está nos ovos mexidos - depois de os bater levemente, adicionar um pouco de espumante (pouco, não exagerem), temperar com sal e pimenta a gosto e misturá-los depois de forma enérgica com um batedor manual ou, melhor ainda, com o batedor do 1-2-3. Entretanto, já ficou a derreter uma colher de sopa de manteiga na frigideira onde se farão os ovos - com lume brando e os cuidados necessários para ficarem cremosos - na realidade, o espumante acentua a cremosidade e dá-lhes um leve toque de um sabor diferente. Também experimentei pôr espinafres salteados em vez do pão e o resultado foi interessante - embora prefira o pão. Boas experiências é o que vos desejo.

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