Manuela Arcanjo
Manuela Arcanjo 04 de fevereiro de 2013 às 23:30

A falta de pudor

Como é que um primeiro-ministro implementa, sem compaixão, uma duríssima política de austeridade, mas não se preocupa nem com o descontrolo financeiro que permanece na Região Autónoma da Madeira nem com as centenas de milhões de euros pagos por muitos ministérios em subsídios e apoios que apenas favorecem pequenos grupos?

Acontecimentos recentes levaram-me a alterar o tema desta coluna. Assim, ficará para outra oportunidade a análise do documento encomendado pelo Governo ao FMI. Hoje, sinto uma necessidade premente de escrever sobre algo que se tem tornado muito evidente no mandato do actual governo: a falta de pudor. Quer nos actos de governação próprios, quer de actores não políticos que agora libertam o seu pensamento.

 

O facto mais recente deu-se com entrada de Franquelim Alves para o elenco governamental e o estranho contra-ataque de ontem do ministro da Economia (ME). Claro que não se podem pôr em causa as qualidades humanas do primeiro nem o seu desempenho profissional nas várias empresas por onde passou. Excepto, claro o facto de ter sido administrador da SLN que integrava o tão famoso BPN. Franquelim Alves não é arguido nem acusado pelo que alguns poderão considerar que pode fazer tudo na vida. Sim, em parte. Com excepção de um cargo governamental já que a pesada factura (entre 5 a 7 mil milhões de euros) não pode ser esquecida e constitui um problema ainda não resolvido para o Estado (e não só para este Governo) e para todos os contribuintes. O próprio não o entendeu e ainda menos o ME que se queixa de baixa política. Mas a questão é esta: quem indicou o nome deste novo Secretário de Estado?

 

Mas se este é o mais recente, não é o único facto indiciador de falta de pudor. Não é aceitável que um prestigiado consultor do primeiro-ministro para a área das privatizações seja, em simultâneo, administrador de diversas empresas. Como também não é aceitável que um ministro adjunto acumule trapalhadas em importantes matérias da governação que não são explicadas apenas por incompetência. 

 

Mas outros aspectos, de natureza diferente, ferem a decência num dos momentos mais duros para milhões de portugueses. Como é que um primeiro-ministro decide emagrecer a estrutura da governação - com as dificuldades já conhecidas na coordenação - com um argumento demagógico de contenção quando contrata, segundo o Tribunal de Contas, um muito elevado número de jovens "especialistas"? Como é que um primeiro-ministro implementa, sem compaixão, uma duríssima política de austeridade, mas não se preocupa nem com o descontrolo financeiro que permanece na Região Autónoma da Madeira nem com as centenas de milhões de euros pagos por muitos ministérios em subsídios e apoios que apenas favorecem pequenos grupos?

 

Mas este despudor governamental criou um caldo de cultura que proporcionou declarações de actores não políticos que seriam impensáveis noutros tempos. Não vale a pena voltar ao pensamento de Isabel Jonet, cuja obra todos os portugueses (doadores e beneficiários) admiravam, já que uma intervenção mais recente suscitou vivas reacções. Sobre a austeridade e os pesados sacrifícios impostos, Fernando Ulrich terá afirmado algo como "se os sem-abrigo aguentam, nós também aguentamos". Seria uma opinião como outra qualquer não fosse o uso do pronome pessoal. Algo está mal quando um banqueiro - por muito competente e eficaz que seja a sua acção no financiamento da economia - assimila a sua posição aos portugueses de todas as idades que perderam tudo menos a dignidade. 

 

Portugal enfrenta problemas económicos, financeiros e sociais. Mas também enfrenta uma crise de valores e de decência.

 

Professora universitária (ISEG) e investigadora. Economista.

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