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Manuela Arcanjo - Economista 25 de Dezembro de 2011 às 23:30

A ausência de esperança

Neste final de um ano difícil para a esmagadora maioria dos portugueses, gostaria de escrever algo de positivo sobre um futuro próximo. Mas não é possível. O ano de 2012 será ainda pior pelo que se conhece e pelo que se pode deduzir. Mas pior, muito pior é a falta de expectativas, a falta de esperança que existe para os anos seguintes.

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Neste final de um ano difícil para a esmagadora maioria dos portugueses, gostaria de escrever algo de positivo sobre um futuro próximo. Mas não é possível. O ano de 2012 será ainda pior pelo que se conhece e pelo que se pode deduzir. Mas pior, muito pior é a falta de expectativas, a falta de esperança que existe para os anos seguintes.

Não é suficiente, e já é suficientemente grave, sabermos que o desemprego vai continuar a aumentar - todas as previsões podem ser, neste momento, optimistas – com a protecção social cada vez mais restritiva. Não é suficiente sabermos, de forma indirecta pela ausência de estudos actuais, que a nossa elevada taxa de pobreza – das mais elevadas na União Europeia – deve estar a aumentar fortemente. Não é suficiente percebermos que existem milhares de famílias que tendo pertencido à designada classe média enfrentam agora carências várias incluindo, a mais grave, a impossibilidade de se alimentarem dignamente. Não é suficiente percebermos que nas melhores avenidas da capital surgem "novos mendigos", homens e mulheres com mais de quarenta anos que de forma envergonhada tentam vender algo porque não conseguem pedir "uma esmola". Não é suficiente sabermos que existem jovens altamente qualificados que trabalham, de forma precária, a menos de cinco euros por hora. Não é suficiente sabermos que milhares de idosos não conseguem, já hoje, comprar medicamentos ou alimentação diária.

Poderia continuar mas agora acho que já é suficiente. Isto tudo já acontece neste final de 2011, ano fatal para os portugueses. Os sucessivos governos nem sempre aplicaram bem os recursos financeiros – aqui não posso deixar de reafirmar que muito deste "desperdício" favoreceu, de forma regular ou ilegal, muitas empresas criadas para o efeito, muitos dirigentes, alguns políticos e seus amigos – e em alguns casos deixaram que os portugueses pensassem que as melhorias salariais e o acesso fácil ao crédito eram sinais de um país que finalmente estava mais rico. Erro fatal.

Mas o futuro poderá trazer efeitos terríveis a médio e longo prazo. Não se trata de especulação mas de uma análise objectiva do que o actual Governo pode vir a deixar aos portugueses. Isto por duas razões principais. Primeiro, porque tendo de respeitar, naturalmente, o mau Memorando assinado com a Troika, não discute as alternativas para chegar aos objectivos e não justifica com base em estudos credíveis os efeitos de determinadas medidas. Temos, para efeitos externos, um Governo de subordinados silenciosos.

Segundo, pela constituição partidária do Governo. Por um lado, o PSD que defende menos Estado e mais privados em áreas sociais mas digamos que "boas áreas de negócios". As opções, assumidas ou não, para o Serviço Nacional de Saúde – elogiado a nível europeu – traduzem apenas um princípio ideológico que não se fundamenta, pelo menos no caso português, em menor gasto nem em mais acesso e qualidade. A trágica "conta" do Primeiro Ministro sobre o valor futuro das pensões é reveladora da leviandade ou incompetência absoluta sobre a forma de se preparar uma nova reforma, seus efeitos e garantias.

Por outro lado, temos o CDS para o qual a política social assenta na caridade. São frequentes os discursos vibrantes sobre as medidas tomadas para os mais carenciados, as restrições aos direitos sociais e aos cortes de despesa porque, afirmam, o Estado só deve garantir apoios aos mais pobres. Recuamos décadas quando as famílias mais ricas apoiavam "os seus pobres".

Por parte do actual Governo não existe uma palavra sobre as possibilidades – estreitas, admito – de se poder gerar mais crescimento. Repete à exaustão a palavra austeridade mas omite a impossibilidade de reduzir a meta do défice público estabelecida para 2012 – com crescimento negativo e com um novo artificio de uma mega receita extraordinária – sem o recurso a mais medidas de empobrecimento. Não é transmitido um sentido para este duro percurso, não é dada uma palavra de esperança sobre o futuro mas apenas um apelo aos desempregados qualificados para emigrarem.

No fundo, até se percebe, Portugal é visto como um país menos recomendável no seio da UEM e, por mimetismo, o actual Governo também gostaria de se ver livre de todos os portugueses que, por desemprego ou pobreza, não pagam impostos.
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