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Manuela Arcanjo - Economista 01 de Janeiro de 1900 às 00:00

As grandes descobertas

Em Portugal, e com muita frequência, a classe política descobre factos ou acontecimentos que lhes causam a maior surpresa e, em consequência, reagem como se de novidades absolutas se tratassem.

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Em Portugal, e com muita frequência, a classe política descobre factos ou acontecimentos que lhes causam a maior surpresa e, em consequência, reagem como se de novidades absolutas se tratassem.

Foi assim, por exemplo, com a divulgação da elevadíssima taxa de pobreza. Isto pode entender-se pelo desconhecimento, inaceitável, da composição actual da população pobre que já não integra apenas os designados sem abrigo. Claro, se não os vemos é porque não existem!

Foi assim também com o caso BPN, o qual surpreendeu até o próprio regulador. A que propósito se daria atenção a rumores que circulavam há anos nos meios económicos, mesmo que aqueles parecessem credíveis? Não tinha sentido, até porque quem pertencia à instituição nada conhecia!

É assim também sempre que são revelados dados sobre actuações fraudulentas no sector da saúde, com aproveitamento ilícito dos dinheiros públicos. Os dados revelados na passada semana são o resultado de uma mega-auditoria lançada em 2001 e que, se a memória não falha, não foi recebida com aplausos. Compreende-se, porque razão se iria investigar um sector apenas destinado a cuidar da saúde dos portugueses?

Os exemplos de "descobertas" poderiam repetir-se mas centremo-nos naquele que tem dominado a vida política e partidária nas duas últimas semanas: Manuel Alegre descobriu que José Sócrates tem implementado políticas de direita e que é avesso ao debate de ideias. Claro que foi o momento de ouro para que se reunissem cerca de mil representantes das designadas "esquerdas", com ou sem filiação partidária.

Se Manuel Alegre é, para além de um grande poeta, uma referência na democracia portuguesa, não deixa de ser estranho que a sua voz não se tenha feito ouvir logo nos primeiros tempos de governação quando os portugueses (eleitores ou não do PS) perceberam que em muitas áreas de intervenção estavam a ser tomadas medidas opostas às enunciadas no programa eleitoral. Também não deixa de ser estranho que um ilustre deputado não faça ouvir a sua voz naquele que deveria ser o espaço privilegiado para a intervenção política, isto é, o Parlamento. Quantas intervenções de fundo proferiu Alegre no Parlamento nos últimos anos, ele que é reconhecidamente um homem de coragem e não um daqueles (muitos) deputados que apenas servem para a "contagem de cabeças"?

É evidente que Alegre tem razão: muitas das políticas que têm vindo a ser concretizadas por José Sócrates poderiam sê-lo por qualquer um dos partidos de direita; claro que Alegre tem razão ao sentir o grupo parlamentar do PS silenciado, longe dos tempos em que era frequente ser dali que surgiam os maiores transtornos aos ministros do respectivo governo; claro que Alegre tem razão em identificar no perfil de José Sócrates alguns traços de centralização, intolerância e falta de diálogo não revelados por outros líderes socialistas.

Se Alegre tem razão no conteúdo das suas críticas, poderá ser criticado no tempo e no modo. Com efeito, não se poderá dissociar a sua intervenção do período eleitoral que se aproxima e da tentativa de agregar ao seu projecto, que se desconhece, quer os eleitores do PS que estão descontentes quer os eleitores "flutuantes". De certa forma, trata-se de uma atitude orientada para as próximas eleições e que tira claro proveito da grave crise financeira e económica que os portugueses estão (e vão) sofrer, mesmo que esta tenha tido a sua origem a nível internacional. Esta interpretação surge reforçada com a ligação dos bloquistas, renovadores e outros que vêem assim aumentado o seu espaço de oposição.

Por último, uma questão interessante: será que Alegre considera que o PS é hoje um partido de centro-direita que tem de ser combatido pelas "esquerdas" ou percebe que a actuação de um governo (nas políticas e atitudes) decorre do perfil do seu primeiro ministro? Chegados aqui, retornemos às "descobertas": só agora é que Alegre descobriu as características e posição ideológica de Sócrates? Se assim foi, então não existe debate de ideias no PS há muitos anos.
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