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Manuela Arcanjo - Economista 30 de Março de 2015 às 21:01

Estimativas e previsões

Na semana passada foram publicadas estimativas para 2014 e previsões para 2015-2017 que tiveram, como sempre acontece, ampla divulgação pelos diversos órgãos da comunicação social.

 

Comecemos pela 1.ª Notificação do Procedimento dos Défices Excessivos remetida pelo INE ao Eurostat, no âmbito dos Regulamentos da União Europeia, e que apresenta dados para o período 2011-2014. Numa leitura mais optimista, digamos assim, foi destacado o facto de o défice das Administrações Públicas no ano passado se poder situar nos -4,5% logo, abaixo da previsão governamental (-4,8%).

 

Mas os economistas têm a obrigação de ir mais longe na análise dos dados. Assim, e em primeiro lugar, o próprio INE ressalva que não foi contabilizado qualquer impacto no saldo orçamental decorrente da capitalização do Novo Banco dado que a entidade estatística europeia ainda não apreciou a operação. Em segundo lugar, importa olhar para a tendência de evolução de dois indicadores essenciais (saldo global e dívida pública) num período de forte austeridade imposta pelo Memorando de Entendimento sobre as Condicionalidades da Política Económica e, importa não esquecer, por diversas medidas decididas a nível nacional que estavam "além da troika", como seja o fortíssimo aumento da tributação.

 

Ora, o défice das Administrações Públicas (em 5% do PIB) efectivamente desceu como nos era imposto; mas a redução entre 2011 e 2014 foi apenas de 2,9 pontos percentuais. Sendo certo que a economia portuguesa passou de uma recessão para quase estagnação, ninguém pode considerar proporcional a redução do défice face às medidas implementadas naquele período. Simultaneamente, verificou-se um aumento da dívida pública de 111% do PIB para cerca de 130% do PIB traduzindo um aumento (em valor absoluto) de cerca de 30 mil milhões de euros. A esta evolução, deveríamos acrescentar o aumento da pobreza e da desigualdade na repartição do rendimento, a saída de centenas de milhares de portugueses (com efeitos em termos de crescimento da população e, no curto e médio prazo, no perfil de qualificações), a degradação do acesso e da qualidade de muitos serviços públicos (em especial na saúde), entre muitos outros aspectos.

 

Por sua vez, o Banco de Portugal (BP) publicou as projecções para a economia portuguesa para 2015-2017. Para o corrente ano, reavaliou em alta o crescimento do PIB (de 1,5% para 1,7%) fundamentado num maior crescimento do consumo privado (em linha com a melhoria do rendimento disponível dos pensionistas), mas numa desaceleração do investimento que, segundo o próprio BP continua a "situar-se muito abaixo do observado nas últimas décadas". Até ao momento, esta previsão supera em optimismo as apresentadas pelos organismos internacionais.

 

E o que nos poderá dar a macroeconomia em 2016? Com base num conjunto de hipótese técnicas, a previsão do BP aponta para uma ligeira aceleração da actividade económica (1,9%) explicada por uma alteração (face a 2015) das componentes da procura interna e externa: desaceleração do consumo privado, aumento da formação bruta de capital fixo (FBCF) e forte aumento das exportações (e, naturalmente, das importações).

 

Independentemente do país, do horizonte temporal e da entidade em causa (nacional ou internacional), as previsões macroeconómicas devem ser sempre avaliadas em função do realismo ou do grau de incerteza associado às hipóteses formuladas. Neste caso, a previsão do BP para a FBCF (em especial, a empresarial) assenta, parcialmente, num acesso mais facilitado ao financiamento bancário, fruto das "mais recentes decisões de política monetária não convencional". No caso das exportações, admite-se um maior dinamismo da procura externa em bens e serviços nacionais. Claro que são hipóteses tecnicamente aceitáveis. O problema é que a sua verificação não depende exclusivamente das decisões nacionais.

 

Mas, admitamos que as hipóteses são concretizadas e que a economia portuguesa crescerá 1,9 e 2% nos próximos dois anos. Como será possível recuperar o país e, simultaneamente, reduzir de forma significativa a nossa dívida pública?

 

Professora universitária (ISEG) e investigadora. Economista. 

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