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Álvaro Nascimento 04 de Junho de 2020 às 09:20

Bancos, os maus da fita!

Existindo a expectativa de um recurso de última instância sem custos, o efeito sobre o crivo do crédito é de um previsível facilitismo na análise e concessão de empréstimos. Não é disto que o setor financeiro está a precisar quando joga no tabuleiro da reputação.

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A FRASE...

 

"AdC quer banca a dar crédito sem exigir conta."

Rita Atalaia, Jornal de Negócios, 2 de junho de 2020

 

A ANÁLISE...

 

Nesta semana, duas notícias sobre o setor bancário que causam alguma perplexidade. Primeiro, o anúncio de que o BCE se prepara para sugerir a aquisição do crédito malparado dos bancos, em virtude do coronavírus. Segundo, a recomendação da Autoridade da Concorrência para que os cidadãos possam solicitar crédito ao consumo e à habitação a uma instituição da qual não é cliente, sem incorrer na obrigatoriedade de abertura de conta, proporcionando-lhes maior mobilidade e liberdade de escolha.

 

Duas medidas com efeitos perversos e que o setor bancário bem poderia dispensar. A confirmação do BCE como investidor de último recurso, garantindo mercado para ativos financeiros de má qualidade, prolonga os incentivos ao crédito numa economia que se encontra já excessivamente endividada. A julgar pela notícia, a sugestão - aplaudida pelas agências de rating - melhoraria a solvência dos bancos, evitando falências. Ora, tal só poderá ser verdade se tais ativos foram adquiridos acima do seu real valor!

 

Existindo a expectativa de um recurso de última instância sem custos, o efeito sobre o crivo do crédito é de um previsível facilitismo na análise e concessão de empréstimos. Não é disto que o setor financeiro está a precisar quando joga no tabuleiro da reputação. Antes, é apologista de uma atitude de responsabilização perante os riscos, assumindo como investidor os prejuízos das más opções. A ameaça de perda, real e credível, é o elemento disciplinador, pedindo uma análise criteriosa antes de qualquer decisão.

 

A exigência de rigor está na génese do setor bancário. Um pouco de estudo da história explica o valor do relacionamento e da informação para traçar o perfil dos clientes e, a partir daqui, a política de concessão de crédito. Cortar a ligação de cumplicidade - por defensáveis razões de proteção do consumidor - e mercantilizá-la, como quem compra um par de sapatos, é fragilizar ainda mais os incentivos, esquecendo a natureza dos bancos. É pensar numa concorrência que não existe - e nunca existirá - e que dará razão à necessidade de um banco central "fazedor" de mercados, contrariando vozes discordantes de apoio público.

 

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências diretas e indiretas das políticas para todos os setores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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