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Álvaro Nascimento 04 de Agosto de 2020 às 09:40

Esperar o melhor e preparar para o pior

O multiplicador da despesa - que governos e economistas aplaudem nas fases de crescimento - vai agora partir para uma segunda ronda de efeitos, mas em sentido inverso: vai desmultiplicar!

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A FRASE...

"Sinais de uma recuperação progressiva da atividade económica."

Ministério das Finanças, Eco, 31 de julho 2020

A ANÁLISE...

Estará, também, o Governo preocupado com a falta de crescimento económico até ao final do ano? Seguramente que sim! Não obstante o aparente otimismo na mensagem do ministério das Finanças quanto à recuperação, é altamente provável que o segundo semestre continue a trazer notícias preocupantes do lado da produção e do emprego.

É verdade que, do ponto de vista do aparelho produtivo, já se verifica uma melhoria da atividade e, até, uma muito tímida recuperação do turismo. Mas é ilusório achar que o pior já passou. As condições de exploração das empresas - com o fim dos apoios estatais - deterioraram-se e são piores que as verificadas durante o período de paragem forçada da economia.

Contabilizada a primeira ronda de perdas, a queda no PIB foi sobretudo o resultado da quebra da procura externa, como refere o ministro da Economia e bem. A suspensão abrupta dos fluxos de turismo trouxe a perda de receita de um setor que, até há pouco, era o mais dinâmico e determinante na criação de emprego. A balança de serviços (metaforicamente, a "correia de transmissão") sofreu um golpe rude!

Na frente doméstica - ao segurar os salários (com o lay-off  simplificado) e oferecendo às famílias e empresas a facilidade de adiar pagamentos (contribuições e impostos, e empréstimos) - a procura interna resistiu. Ironicamente, criou uma falsa perceção de aumento do rendimento disponível, que permitiu reforçar as poupanças e, creio mesmo, escoar os stocks de produtos. Mais adiante veremos!

O multiplicador da despesa - que governos e economistas aplaudem nas fases de crescimento - vai agora partir para uma segunda ronda de efeitos, mas em sentido inverso: vai desmultiplicar! Escasseando os apoios públicos, é altamente provável que se registe uma quebra da procura interna. Não sendo contrariada pelo turismo (que observa reduções nos rendimentos do trabalho e do pequeno capital) e pretendendo menorizar as perdas que se vislumbram no horizonte, o segundo semestre coloca exigências muito fortes sobre a restante indústria portuguesa. Preparados ou pessimistas?

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências diretas e indiretas das políticas para todos os setores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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