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António Nogueira Leite 06 de Julho de 2020 às 19:05

Intermezzo crucial

Os países que consigam levar as suas sociedades e economias a funcionar adequadamente neste contexto novo e temporário serão os que menores danos sofrerão.

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A FRASE... 

"A velocidade e a força da recuperação desta crise dependem da eficácia da resposta de saúde pública na redução da propagação do vírus, mas também da capacidade dos países em protegerem empregos e rendimentos, em particular dos mais vulneráveis." 

Elliot Harris, economista-chefe da ONU, ONU, junho de 2020

A ANÁLISE... 

Após o sucesso do embate inicial da pandemia, o Governo parece ter perdido o norte. O que era verdade ontem (exames no básico e secundário com mínimos de distanciamento social) já não é hoje (veja-se que no secundário em 2020/21 a pandemia se combate só com o uso de mascara, assumindo-se que não haverá o distanciamento que os técnicos propõem nos demais países e cá, para tudo o mais, mesmo envolvendo jovens da mesma idade). Assim não há confiança que resista. 


Esta questão é central. Claro que uma resolução do problema epidemiológico no médio prazo é o princípio da solução. Mas até lá, independentemente de tudo o resto, os países que consigam levar as suas sociedades e economias a funcionar adequadamente neste contexto novo e temporário serão os que menores danos sofrerão. No caso português, é crucial que se tenha uma mensagem clara e coerente nas áreas em que haja maiores certezas de médicos e epidemiologistas. É fundamental que se perceba um conjunto de princípios muito simples e sobre os quais não poderá haver cedências. Em primeiro lugar, falar sempre a verdade e, se ela mudar, explicar exatamente porquê. A quebra de confiança prejudicará a gestão eficiente de um processo novo e complexo. Infelizmente, já não se admitirão muito mais falhas para além das já ocorridas. Em segundo lugar, há que gerir com clareza, responsabilidade e ouvindo o melhor que a ciência tem para dar: já se sabe que a abordagem tem de ser local, que os meios de teste têm de estar presentes, que as autoridades não podem abrir exceções aos princípios que atualmente terão de conformar a vida em sociedade, que há que gerar e usar a melhor informação possível sobre a evolução da epidemia e otimizar a articulação de meios. 


Se persistir o amadorismo do ultimo mês e meio, a doença descontrola-se, a menos de um milagre. A confiança esfumar-se-á. Falta de controlo será fatal num país que chegará ao fim do ano com uma dívida pública de 135% do Produto, desemprego de dois dígitos e uma queda histórica do crescimento. Acredito numa recuperação em 2021 se os prováveis avanços no combate à doença se materializarem. Mas o nosso problema poderá ser maior do que tem de ser se não nos preparamos adequadamente neste breve intermezzo em que estamos. Já perdemos semanas cruciais. 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências diretas e indiretas das políticas para todos os setores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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