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António Nogueira Leite - Economista 18 de Fevereiro de 2021 às 09:20

A lista de compras

Se o plano se mantiver como uma “lista de compras” para levar a cabo os investimentos que o Governo gostaria de ter feito mas não fez, então o seu impacto no crescimento a prazo da economia será, infelizmente, pouco diferente das iniciativas tomadas no passado recente.

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A FRASE...

"O que se vê é a utilização destes fundos para compensar o que não foi feito, não é propriamente uma estratégia para aumentar a competitividade do país e das empresas." 

 

António Costa, Eco, 16 de Fevereiro de 2021

 

A ANÁLISE...

 

A economia portuguesa está estagnada há cerca de duas décadas. Neste período, em que os atuais governantes estiveram em vários executivos durante dois terços do tempo decorrido, o país atrasou-se face à maioria das economias mais atrasadas da União Europeia (quem imaginaria em 2000, que 20 anos passados estaríamos a olhar para comparáveis como a Roménia ou mesmo a Bulgária?), a dívida pública tornou-se um verdadeiro problema, o país precisou de um resgate financeiro e a administração pública não se modernizou em muitas das suas atividades. Também assistimos ao crescimento e fim doloroso de um modelo económico assente num capitalismo de compadrio com o Estado, endividamento excessivo e negócios sob a égide pública que levaram, quase sempre, a uma pesada fatura para os contribuintes e ao desaparecimento enquanto atores económicos de boa parte dos "empresários amigos da situação".

 

É talvez excessivo esperar que o Plano de Resiliência e Recuperação (PRR) venha, de uma penada, resolver todos estes problemas. Não fomos capazes de criar instituições resilientes e propiciadoras de desenvolvimento, os mercados continuam a funcionar com demasiados impedimentos e a previsibilidade da ação pública não se tornou a regra, continuando a ser, quando muito, a exceção. Claro que o PRR terá de endereçar algumas destas questões - por via das demonizadas reformas estruturais - mas entre a sua referência como expressão da condicionalidade europeia e um propósito claro de mudança pode ir a distância que marcará o sucesso ou a irrelevância a prazo do plano de que agora se fala.

 

Se o plano se mantiver como uma "lista de compras" para levar a cabo os investimentos que o Governo gostaria de ter feito mas não fez, então o seu impacto no crescimento a prazo da economia será, infelizmente, pouco diferente das iniciativas tomadas no passado recente. O dinheiro será "investido", os aliados privados acabarão por mais uma vez vir a perder o dinheiro que captarão no início do processo e o país ficará na mesma. Ainda há uma possibilidade redentora, porém implica que se leve a cabo agora um debate sério e profundo, uma mudança relevante de planos. Não uma mera consulta para inglês (alemão?) ver.

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências diretas e indiretas das políticas para todos os setores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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